Aos 47 anos, Lázaro Ramos afirma viver um novo momento na carreira após três décadas de atuação no audiovisual. Em entrevista ao Splash, o ator falou sobre os desafios enfrentados ao longo da trajetória, marcada por episódios de solidão profissional e pela atuação constante no debate sobre racismo no Brasil. O artista também se prepara para interpretar um vilão na novela A Nobreza do Amor.
Com cerca de 30 anos dedicados à arte, Ramos iniciou a carreira no Bando de Teatro Olodum, na década de 1990. O reconhecimento nacional veio pouco tempo depois, quando interpretou João Francisco dos Santos no filme Madame Satã (2002). A partir dali, ampliou a presença em produções televisivas e novelas, entre elas Cobras & Lagartos (2006), na qual viveu o personagem Foguinho.
Ao recordar o início da trajetória, o ator afirma que frequentemente era o único artista negro em determinados elencos. “No começo havia uma solidão, só tinha eu nos elencos”.
Segundo Ramos, a discussão sobre racismo e diversidade sempre esteve presente em sua formação pessoal e artística. Ele relembra que criou e apresentou o programa Espelho há cerca de duas décadas, em um período em que o tema ainda tinha pouca presença no debate público.
“A gente falava desse assunto quando ele não estava na pauta [da sociedade]. Muita gente deu a primeira entrevista lá no ‘Espelho’. Felizmente hoje essa discussão está espalhada em outros lugares.”
Para o ator, comunicação e arte desempenham papel relevante na transformação social. “Minha formação foi essa: reconhecer a importância de falar sobre esse assunto e entender o poder que a comunicação e que a arte têm para educar as pessoas, informar e sensibilizar”.
Ao analisar a própria carreira, Ramos afirma sentir orgulho de ter participado de mudanças na televisão brasileira. Ele cita produções como a novela Lado a Lado (2012), o seriado Mister Brau (2015–2018) e a atual A Nobreza do Amor como exemplos de transformações na representação de artistas negros na TV. “Fico tocado em perceber que existe uma coerência. Não é que eu tenha provocado tudo sozinho, porque não fui só eu, mas participei dessas mudanças”.
O ator também destaca que o cenário atual apresenta maior diversidade e interação entre diferentes gerações de artistas negros. Ele afirma que essa convivência pode ser observada nos bastidores da novela.
“Às vezes eu fico em silêncio só desfrutando desse encontro. A gente tem a Dona Zezé Motta, o Hilton Cobra, que são de uma geração anterior à minha. Depois tem a minha geração e logo chegam atores mais jovens. Um alimentando o outro, trocando experiência, falando do que viveu e das estratégias que precisou criar em momentos diferentes.”
Ramos conta que passou a participar de debates sociais ainda na adolescência. “Com 15 anos eu fui à primeira reunião com temática social e aquilo abriu uma janela para mim”.
Ao longo do tempo, porém, ele afirma ter percebido a necessidade de equilibrar o engajamento político com o cuidado pessoal. “Eu via várias referências e ídolos que se sacrificavam pela causa antirracista. Provocaram mudanças importantes, mas na vida pessoal estavam adoecidos, sem cuidar da própria saúde.”
Segundo o ator, houve um período em que o envolvimento intenso com diferentes causas trouxe desgaste emocional. “Antes desses projetos mais recentes, eu estava vivendo uma vida um pouco adoecida. Eu estava na ambição de transformar o mundo sem dormir, lutando… A pessoa me contava um problema e eu processava aquilo como se fosse meu.”
Em janeiro de 2024, Ramos afirma ter sido diagnosticado com burnout após um período de exaustão causado por excesso de trabalho, noites mal dormidas e elevada carga mental. A partir daí, decidiu rever a forma de se relacionar com a profissão.
“Quando dei um ‘restart’, pensei: Agora preciso fazer trabalhos que contem o mundo, mas que também me alimentem.”
Atualmente, o ator diz viver uma fase mais equilibrada. “Eu venho gravar essa novela pensando: ‘Estou saindo de casa para ser feliz’. Estou fazendo uma coisa que amo, que me dá orgulho. Voltei a estudar texto como se estivesse no início da carreira, com prazer. Isso é muito importante. Inclusive faz a gente fazer melhor o nosso trabalho”.
Na novela A Nobreza do Amor, Ramos interpreta Jendal, personagem que inicia a trama como primeiro-ministro e organiza um golpe contra o rei Cayman II, vivido por Welket Bungué. Após tomar o trono do reino fictício de Batanga, o vilão passa a perseguir a princesa Alika, interpretada por Duda Santos, tentando forçá-la a um casamento para legitimar o próprio poder.
Ambientada na década de 1920, a história acompanha a fuga da princesa e da rainha Niara, papel de Erika Januza, para o Brasil. Enquanto Alika assume a identidade de Lúcia e vive um romance com Tonho, interpretado por Ronald Sotto, no litoral do Rio Grande do Norte, Jendal intensifica a perseguição em busca de recuperar o controle.
Apesar da experiência consolidada na carreira, Ramos afirma que nunca teve como objetivo interpretar vilões. “Eu nunca tive o sonho de fazer vilão. Meus colegas todos sonhavam, mas eu não. Agora que estou fazendo, tô achando maravilhoso. É uma catarse… Estou adorando fazer maldade. E é o lugar certo para fazer: na ficção.”