O bairro do Caminho das Árvores, em Salvador, talvez seja um dos exemplos mais bem sucedidos de empreendimento residencial da capital baiana. Na década de 1970, quando o centro da cidade era deslocado para a região norte (Iguatemi), surgiu a ideia de apostar na área arborizada com grandes casas, voltadas para a elite que desejava estar mais próxima da nova zona comercial. Agora, as mansões dão lugar a prédios de luxo com apartamentos que ultrapassam os R$ 2 milhões.
A onda de demolições de casas tradicionais e a construção de edifícios não passam despercebido por quem circula nas ruas que levam nomes de árvores. O cenário é formado por canteiros de obras, movimento intenso de trabalhadores e placas de ‘vende-se’ que se acumulam nas fachadas. O miolo espremido entre avenidas movimentadas e centros de negócios se vê, cada vez mais, semelhante aos vizinhos.
O Caminho das Árvores surgiu como o primeiro loteamento residencial planejado de Salvador, na década de 1970. Inicialmente, o bairro possuía regras rígidas de edificação, podendo ser construídas apenas casas residenciais de até dois andares. Muitas dessas casas, agora, são ocupadas por idosos que criaram famílias que se distribuíram em outros pontos da cidade. A venda, para muitos deles, se tornou a melhor – e às vezes, única – opção.
“Nos últimos anos, a região vem passando por um processo de transformação urbana semelhante ao observado em outros bairros consolidados das grandes capitais brasileiras. Muitas dessas antigas casas deram lugar a edifícios residenciais e comerciais, acompanhando a otimização do uso do solo e a valorização da região”, analisa Viviane Fonseca, vice-presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA).
Os novos edifícios que substituem as mansões são considerados de luxo e têm m² a partir de R$ 15 mil, em média, segundo Viviane Fonseca. “Considerando as metragens mais comuns dos lançamentos atuais, o ticket médio de apartamentos novos no bairro tende a variar entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, dependendo do tamanho da unidade, do padrão construtivo e das características do empreendimento”, detalha.
Mansões
O valor das casas vendidas não fica atrás quando o assunto é valorização. Larubia Oliveira, advogada e corretora de imóveis que trabalha há mais de 20 anos na região, confirma. “O que vemos é uma procura maior a cada ano por esses imóveis, principalmente através da construção civil que estão em busca de terrenos”, explica. Não por acaso, o Caminho das Árvores aparece como o segundo bairro com m² mais caro de Salvador neste mês, conforme o índice FipeZAP, que mede preços de imóveis residenciais e comerciais no Brasil.
A região tem como preço médio R$ 11.067 por m², o que representa uma valorização de 10,7% nos últimos 12 meses. O Caminho das Árvores só fica atrás da Barra, com valor médio de R$ 12.020 por m². Enquanto isso, a média da cidade é de R$ 8.238/m². A corretora Larubia Oliveira explica que os preços variam conforme as ruas do bairro. A Alameda das Espatódeas, por exemplo, tem as casas mais caras, enquanto as ruas internas do bairro têm preços mais baixos.
Quem vende e quem compra
No mercado imobiliário, as casas soltas, de grande porte e terreno extenso, como as que resistem no Caminho das Árvores, ganham um nome específico: casas comerciais. “São casas residenciais, que ficam fora de condomínios. Elas estão dando lugar aos imóveis comerciais ou são demolidas e voltam a ser terrenos para uso da construção civil”, explica a corretora.
O perfil de quem vende as mansões é semelhante. “A grande maioria dos proprietários é formada por idosos, acima dos 70 anos, viúvos, que já têm seus filhos casados e moram sozinhos”, exemplifica Larubia Oliveira. Por decisão individual ou necessidade familiar, os donos vendem os imóveis por valores que, em muitos casos, superam a cifra de R$ 1 milhão.
Nesse processo, as incorporadoras têm um papel essencial. São elas que idealizam, viabilizam e gerenciam os projetos imobiliários do início ao fim. As empresas atuam desde a compra dos terrenos até o desenvolvimento de projetos arquitetônicos. Para Viviane Fonseca, vice-presidente da Ademi-BA, os novos empreendimentos tentam resgatar a origem do Caminho das Árvores.
“A nova geração de empreendimentos busca reinterpretar a tradição do bairro, incorporando projetos arquitetônicos contemporâneos e soluções que valorizam o paisagismo e os espaços de convivência”, diz. “Projetos recentes têm priorizado integração com áreas verdes, conforto ambiental e espaços compartilhados que estimulam um estilo de vida mais equilibrado, acompanhando tendências contemporâneas do mercado imobiliário”, acrescenta.

Casarão resiste às novas construções no Caminho das Árvores Crédito: Sora Maia/CORREIO
Em meio a ambição dos novos negócios e ao desejo de transformar casas de família em milhões, nem todos os moradores abrem mão da tradição. Há anos, residentes de uma grande casa mantém um aviso instalado no muro amarelo: ‘Não vendo. Favor não insistir’. Ao lado, o novo edifício em construção já supera a altura do casarão.
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