A atriz Fernanda Montenegro, de 96 anos, é a capa e o principal destaque de uma edição recente da Vogue Brasil. Na entrevista, a artista relembra momentos marcantes de sua trajetória, comenta o novo trabalho no cinema e reflete sobre o envelhecimento, o teatro e o atual momento do audiovisual brasileiro.
Com uma carreira que atravessa décadas, Montenegro é reconhecida por atuações dramáticas que marcaram a história do cinema nacional e conquistaram projeção internacional. Entre os trabalhos mais conhecidos está Central do Brasil, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz e prêmios como o Globo de Ouro e o Bafta de melhor filme estrangeiro.
Na nova fase da carreira, a atriz retorna às telas em um registro diferente. Ela é protagonista da comédia Velhos Bandidos, que estreia no dia 26 e é dirigida por seu filho, o cineasta Cláudio Torres. Na produção, Montenegro interpreta Marta, uma idosa que planeja assaltar um banco ao lado do personagem de Ary Fontoura, contando ainda com a participação de Bruna Marquezine e Vladimir Brichta.
Durante a entrevista, a atriz destacou a complexidade do gênero cômico. “Fazer rir é muito mais difícil do que o drama. A carga de humor já tem de fazer parte de nós. Ou se nasce com ela ou o ator tem de caçá-la. Nem sempre conseguimos encontrá-la”, afirmou. Para Montenegro, os diferentes gêneros dramáticos possuem o mesmo peso artístico: “Na tradição do teatro, a tragédia, o drama, a comédia são comportamentos cênicos com a mesma importância criativa, cultural e existencial. Portanto, viva a comédia! Amo a comédia!”
A parceria com o filho também foi ressaltada. Esta é a segunda vez que Torres dirige a mãe no cinema, após Redentor. Sobre o reencontro, Montenegro comentou: “Cláudio Torres é um diretor e roteirista sempre conhecedor do que deseja do seu filme. Tem um humor refinado, insidioso”. A atriz também avaliou o trabalho conjunto como um momento especial. “São 22 anos entre Redentor e Velhos Bandidos. Esse reencontro é amplo e definitivo. Para mim, é um fato extremamente confortador.”
O longa reúne ainda um elenco formado por nomes veteranos da dramaturgia brasileira, como Nathalia Timberg, Vera Fischer, Reginaldo Faria, Tony Tornado e Teca Pereira. Segundo Montenegro, o projeto celebra a convivência entre diferentes gerações de artistas. “Nesse nosso filme, nós, os NOLTs [nova tendência de vida na velhice que rejeita seus estereótipos], somamos quase mil anos de vida”, disse, acrescentando que considera “extraordinária” a integração com atores mais jovens no elenco.
Na entrevista à revista, a atriz também comentou o reconhecimento internacional do cinema brasileiro. Segundo ela, a produção nacional sempre manteve um padrão de qualidade, mesmo diante de dificuldades financeiras. “O nosso cinema sempre existiu. E existe. Por incrível que pareça, já fiz quase 40 filmes. Nenhum que não tivesse uma boa qualidade em sua feitura, mesmo com dificuldades de investimento”, afirmou.
Montenegro também se prepara para receber uma homenagem no Golden Globes Tribute Awards Brasil, cerimônia que reconhece artistas brasileiros com projeção internacional. O tributo ocorre 27 anos após sua indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática.
Apesar de ter sinalizado que “Velhos Bandidos” pode ser seu último filme, a atriz afirmou que não pretende se afastar da arte. “Caminho para 100 anos. Será um milagre se eu ainda tiver fôlego para mais um filme. Terei fôlego?”, questionou. Montenegro destacou, no entanto, que pretende continuar ligada ao teatro e às leituras dramáticas. “O teatro é eterno. Enquanto eu tiver conexão cerebral, estarei, sim, lendo Nelson Rodrigues, Simone de Beauvoir.”