Mês da Mulher: conheça Dalal Achcar, figura ligada à dança na Bahia e lembrada em “Ainda Estou Aqui”

Mês da Mulher: conheça Dalal Achcar, figura ligada à dança na Bahia e lembrada em “Ainda Estou Aqui”

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Divulgação/Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Publicado em 06/03/2026 às 08:22 / Leia em 5 minutos

No mês em que se celebram as conquistas femininas, a trajetória de Dalal Achcar ganha ainda mais destaque. Considerada uma das grandes responsáveis pela formação da dança clássica no Brasil, a bailarina, coreógrafa e gestora cultural construiu uma carreira que atravessa décadas e diferentes cidades, com uma ligação especial com a Bahia.

Figura central da vida cultural do Rio de Janeiro, Dalal foi diretora artística do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e presidiu por duas vezes a Fundação Theatro Municipal. Também foi responsável por trazer ao Brasil a metodologia da Royal Academy of Dance, que continua sendo aplicada na Escola de Ballet Dalal Achcar, na Gávea, instituição que completa 55 anos em 2026 e formou gerações de bailarinos.

Sua relação com a Bahia começou cedo e ajudou a moldar parte importante da história da dança no estado. Em 1962, Dalal participou da criação da Escola de Ballet do Teatro Castro Alves, em Salvador, a Ebateca. Alguns anos depois, em 1968, fundou o Ballet Brasileiro da Bahia, projeto que abriu caminho para a criação do Balé Teatro Castro Alves, companhia oficial de dança do estado, inaugurada em 1981.

Foi nesse período que nasceu uma relação afetiva profunda com Salvador, onde começou a coreografar para camadas mais amplas da população e a entender ainda mais a importância da democratização da dança, tanto para quem a executa quanto para quem a assiste. O vínculo com a cidade também aparece em seu projeto mais recente, o espetáculo “Água de Meninos – Fantasia Poética em Dois Atos”, apresentado no ano passado na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. O título faz referência à tradicional feira popular à beira-mar de Salvador, destruída por um incêndio em 1964 e que Dalal chegou a frequentar durante suas temporadas na capital baiana.

Dalal com a partitura de Tom Jobim para seu balé | Foto: Acervo

A trilha do espetáculo celebra a amizade entre a coreógrafa e Tom Jobim, morto em 1994. Em cena, 21 bailarinos da Companhia de Ballet Dalal Achcar percorrem, em movimentos coreográficos, paisagens e atmosferas de Salvador e do Rio de Janeiro ao som de clássicos da música brasileira. O repertório inclui obras de nomes como Baden Powell, Dorival Caymmi, Pixinguinha e Vinicius de Moraes, reforçando o diálogo entre a dança e a música popular brasileira.

A origem do projeto remonta a uma lembrança antiga. Nos anos 1960, quando mantinha um pequeno estúdio de dança em Ipanema, Dalal convivia com músicos da bossa nova que frequentavam o antigo Bar Veloso, cenário que inspirou “Garota de Ipanema”. Sem piano próprio, Tom Jobim e Vinicius de Moraes costumavam bater à porta do estúdio ao fim do dia. Foi desse convívio que surgiu um convite inesperado, o de Jobim fazer um balé pra ela.

A ideia, contou Dalal em recente entrevista à coluna À Mesa com Valor, do Valor Econômico, era criar uma obra inspirada em sua paixão pela Bahia e na feira de Água de Meninos. A música ficou pronta décadas atrás, mas o espetáculo só ganhou forma recentemente, 60 anos depois, com Dalal já com 88 anos, quando ela arranjou o dinheiro para contratar os músicos, gravar a orquestra, ouvir a música e fazer o balé.

A carreira de Dalal começou ainda mais cedo. Ela não tinha 20 anos quando fundou, em 1956, o Ballet do Rio de Janeiro, companhia criada com os objetivos de formar novos bailarinos por meio de bolsas de estudo e produzir montagens originais de alto nível. Ao longo das décadas, também participou de momentos emblemáticos da vida cultural brasileira. Em 1991, durante visita oficial ao Brasil, Charles III, então príncipe, e Diana Spencer foram recebidos por Dalal no Theatro Municipal do Rio para um espetáculo do Grupo Corpo.

Foto: Ana Branco

A artista também teve presença indireta em um dos episódios mais dramáticos da história recente do país. Amiga de Eunice Paiva, viúva do deputado Rubens Paiva, desaparecido durante a ditadura militar, Dalal criou um curso de terapia através da dança para ajudar pessoas a lidar com o clima de tensão da época.

“Era um curso de terapia através da dança, um processo de reequilíbrio, um momento de relaxar, reorganizar as forças, diminuir a ansiedade”, explica ao Valor sobre a iniciativa criada diante do cenário de medo e incerteza. Décadas depois, o episódio voltaria ao debate público com o filme “Ainda Estou Aqui”, inspirado no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens e Eunice, em que Dalal chega a aparecer e ser citada algumas vezes.

Entre memórias pessoais, histórias da cultura brasileira e projetos artísticos que atravessam gerações, Dalal segue defendendo a dança como uma linguagem coletiva. Para ela, a principal lição do balé vai além da técnica. “Você depende do outro, é sempre um olhar para o coletivo.”

Ao longo das últimas décadas, Dalal Achcar fez mais do que coreografar espetáculos. Ela formou artistas, ampliou plateias e abriu caminhos para que a dança chegasse a públicos cada vez mais diversos, um movimento que, em parte, começou justamente a partir de sua relação com a Bahia.

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