O Alô Alô Bahia inicia uma série especial em celebração ao Dia Internacional da Mulher, destacando histórias de baianas que se destacam em diferentes áreas. A primeira reportagem apresenta a trajetória de Mãe Ana de Xangô, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, um dos terreiros de candomblé mais importantes do país.
Localizado no bairro de São Gonçalo do Retiro, em Salvador, o terreiro foi fundado em 1910 e é tombado como patrimônio histórico nacional pelo IPHAN. A casa preserva rituais da tradição nagô-ketu, vertente do candomblé de origem iorubá, ligada aos povos da África Ocidental, especialmente das regiões que hoje correspondem ao Benim e ao sudoeste da Nigéria.
O espaço possui uma estrutura historicamente matriarcal. A casa foi fundada por Mãe Aninha, ialorixá de Xangô, e também teve como líderes figuras marcantes como Mãe Senhora e Mãe Stella de Oxóssi, uma das principais referências das religiões de matriz africana no Brasil, que esteve à frente do terreiro por mais de quatro décadas, entre 1976 e 2018.
Desde 2019, a liderança do terreiro está nas mãos de Mãe Ana de Xangô, a sexta ialorixá da casa. Pedagoga, Ana Verônica Bispo dos Santos iniciou sua trajetória no terreiro ainda jovem. Aos 13 anos participou do Coral Afonjá e, aos 22, foi iniciada no candomblé pela própria Mãe Stella de Oxóssi. A escolha para assumir o cargo aconteceu após um jogo de búzios conduzido pelo babalorixá Balbino Daniel de Paula.
“Eu nunca imaginei que em 2019 seria sucessora de Mãe Stella de Oxóssi. Me senti assustada e lisonjeada por ser a escolhida de Xangô Afonjá em uma casa fundada por Mãe Aninha. Assumir um terreiro com mais de 110 anos de existência é um grande desafio pela sua história e legado”, afirma.
Protagonismo feminino no candomblé
Nas religiões de matriz africana, o papel feminino é central. As iyalorixás são responsáveis por conduzir os rituais, cuidar da comunidade religiosa e garantir a continuidade das tradições.
“As mulheres de terreiro não apenas ocupam cargos de liderança, mas são guardiãs da ancestralidade e da coesão comunitária, com poder de decisão”, destaca Mãe Ana.
Ela também ressalta que a luta contra o racismo religioso faz parte do cotidiano das lideranças espirituais. “Ser mulher negra, sacerdotisa e liderança espiritual significa combater diariamente atitudes discriminatórias contra nossa crença e nossas práticas”, afirma.
Desafios e projetos
Entre as principais missões de Mãe Ana está preservar o legado deixado pela fundadora da casa. Segundo ela, o sonho de Mãe Aninha era ver seus filhos espirituais prosperarem na vida sem se afastar da fé.
“Quero ver meus filhos com anel no dedo aos pés de Xangô”, lembra, citando a frase que simboliza a união entre espiritualidade, educação e trabalho.
O terreiro também mantém iniciativas voltadas à educação e à memória. Uma delas é a parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Salvador por meio da Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, que integra o ensino formal à valorização da história e da cultura afro-brasileira.
Entre os projetos em destaque está ainda o Museu Ohun Lailai, considerado o primeiro museu instalado dentro de um terreiro de candomblé, além de ações comunitárias voltadas ao bairro de São Gonçalo do Retiro.
Ensinamentos de Xangô
Para Mãe Ana, os ensinamentos de Xangô, orixá associado à justiça, orientam sua atuação como líder espiritual.
“Xangô nos ensina o equilíbrio entre poder e ética. Liderar não é exercer autoritarismo, mas usar a autoridade para proteger o coletivo e garantir que todos recebam o que lhes é de direito”, explica.
Mensagem para as mulheres
Ao refletir sobre o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a ialorixá destaca a resistência feminina dentro e fora dos terreiros.
“Que todas as mulheres continuem lutando por dias melhores e por mais espaço nos lugares de poder. Que sejam abençoadas pelas yabás com força, beleza, determinação, amor, cuidado e dignidade”, finaliza.