Uma casa à beira-mar em Trancoso, no sul da Bahia, virou destaque nacional ao ser publicada pela revista Casa Vogue. Assinado pelo Studio Gontijo, escritório sediado em Brasília, o projeto aposta na matéria bruta, na transparência e na integração total com a paisagem para criar uma morada sensorial, horizontal e conectada ao ritmo de vida da proprietária.
A residência nasceu no momento em que a empresária brasiliense decidiu encerrar uma carreira bem-sucedida para adotar um cotidiano mais lento nos arredores do vilarejo baiano, conhecido pelas paisagens exuberantes e atmosfera discreta. Foi justamente a experiência acumulada ao longo de décadas que orientou a construção do novo endereço: da escolha do escritório à curadoria minuciosa de materiais, acabamentos, móveis e objetos, muitos com valor histórico ou afetivo.

“Ela é uma cliente antiga. Eu já havia projetado dois escritórios e a residência da família quando fui chamada para essa nova empreitada”, resume Gabriela Gontijo, sócia de Mariana Hummel e, mais recentemente, de Jade Ávila, no Studio Gontijo.
Ao contrário do que se poderia esperar de uma casa litorânea, o projeto não segue a linha minimalista ou modernista que tem se multiplicado na região. “Eu não queria repetir o ‘estilo’ que vem redesenhando Trancoso nos últimos tempos. Pensava em um galpão de vidro, uma grande varanda, algo totalmente integrado ao entorno”, afirma a proprietária, sobre a ideia amadurecida ao longo de dez anos de temporadas no destino.

O terreno, no alto de uma falésia na Praia de Itapororoca, com vista frontal para o mar e mata preservada nos fundos, permitiu concretizar esse desejo. Desde o primeiro esboço, o escritório traduziu as diretrizes em uma residência térrea, rústica e horizontal, de linhas retas, beirais generosos e amplos vãos voltados para o verde e o azul da paisagem. A construção se organiza em blocos interligados por percursos ao ar livre, com jardins internos e uma ousadia central: é quase inteiramente envolta por vidro, com forro de biriba na face inferior da cobertura.
São mais de mil metros quadrados de superfícies translúcidas, solução desafiadora do ponto de vista térmico e estrutural. A escolha partiu da confiança mútua entre arquiteta e cliente. “Confio no que a Gabi propõe e ainda vou além, com meu jeito extravagante. Depois, ela lapida minhas ideias e as integra harmonicamente ao projeto”, conta a dona da casa.

A obra, iniciada antes da pandemia de Covid-19, enfrentou interrupções e passou por duas construtoras até a conclusão. “Foi um período de maturação, em que diversos detalhes foram incorporados gradualmente, sem alterar o plano original”, explica Gabriela, citando o uso de pisos e portas de demolição, grades antigas, lustres de fibra natural e dormentes reaproveitados, que conferem densidade material e narrativa ao conjunto.
O resultado é uma casa que combina rusticidade e transparência, técnica e sensibilidade. “Garimpei peças de artistas e artesãos locais, conheci fornecedores da região e reuni o melhor de tudo isso”, celebra a proprietária. “A casa sou eu. Ela expressa minha identidade. É prática e, ainda assim, consigo ver a Lua através do telhado. Aqui, desfruto da vida como sempre quis, à baiana”, conclui.
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