A carioca Gabriela Frajtag, de 20 anos, foi reconhecida em um dos principais concursos internacionais dedicados à biologia quântica. Ela recebeu menção honrosa no prêmio promovido pelo Foundational Questions Institute, em parceria com o Paradox Science Institute e a instituição brasileira Idor Ciência Pioneira. Ao todo, foram distribuídos US$ 53 mil, cerca de R$ 300 mil, aos melhores ensaios. Gabriela foi contemplada com US$ 3 mil após responder à pergunta proposta pela competição: “A vida é quântica?”.
A trajetória que levou ao reconhecimento começou ainda na infância. “Eu era o tipo de estudante que participava de olimpíadas científicas, dessas competições que vão além do que é ensinado na escola. Fiz de tudo: matemática, astronomia, linguística, neurociência, biologia”, afirmou.
O interesse por diferentes áreas do conhecimento a levou a ingressar na Ilum Escola de Ciência, em Campinas, vinculada ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, onde está instalado o Sirius, um dos mais modernos aceleradores de elétrons do mundo. “A Ilum é interdisciplinar, então eu podia estudar biologia, física, matemática e ciência de dados ao mesmo tempo. Estar dentro do Cnpem foi decisivo para mim”, explicou.
O contato direto com a biologia quântica ocorreu em agosto do ano passado, durante a primeira edição da Escola de Biologia Quântica, realizada em Paraty, no Rio de Janeiro. O encontro integrou as celebrações do Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas, proclamado pela Unesco. “Foi ali que eu mergulhei de verdade nesse campo que trata a biologia também a partir da interseção com a física”, disse.
A oportunidade de participar do concurso surgiu a partir de um grupo de mensagens criado entre os participantes do curso, onde foi compartilhado o edital da competição. Mesmo sem uma pesquisa consolidada na área, Gabriela optou por escrever um ensaio com perspectiva histórica. “Sempre li muito sobre história da ciência, biografias, como as descobertas acontecem. Achei interessante fazer uma visão panorâmica”, contou.
Formada em 2025 como primeira colocada da turma, ela afirmou que a premiação foi inesperada. “Foi uma grande surpresa ganhar. Eu realmente não estava esperando”, declarou.
Sobre o campo que despertou seu interesse, Gabriela explica: “A biologia quântica é basicamente uma área que investiga como fenômenos da mecânica quântica, ou seja, como efeitos eletrônicos e energéticos em escala microscópica podem influenciar processos biológicos, por exemplo na fotossíntese ou na navegação de alguns animais”.
Ao comentar um dos exemplos estudados pelos pesquisadores, destacou a navegação das aves migratórias. “Um exemplo clássico é a navegação de aves migratórias. A ideia mais estudada envolve uma proteína chamada criptocromo, presente nos olhos dessas aves. Quando a luz atinge essa proteína, ela forma um par de elétrons cujos estados ficam correlacionados por um fenômeno quântico chamado entrelaçamento”, explicou.
“O campo magnético da Terra pode influenciar a dinâmica desses elétrons, o que pode alterar reações dentro da proteína. Aí o que se teoriza é que provavelmente essas reações diferentes podem resultar em sinais visuais ou bioquímicos que ajudam a ave a perceber a direção do campo magnético, funciona como uma espécie de bússola interna”, completou.
Gabriela pretende seguir carreira acadêmica. “Quero fazer mestrado, depois doutorado fora do Brasil e, eventualmente, virar professora e ter meu próprio laboratório”, afirmou. Para ela, o reconhecimento mostra que jovens cientistas brasileiros podem participar de debates científicos globais desde o início da carreira. “É um campo muito novo, com muito espaço para crescer. Participar disso tão cedo é uma responsabilidade e também uma motivação para continuar”.