Tragédia em Juiz de Fora expõe mapa do risco: Bahia tem 8,5 milhões de moradores expostos

Tragédia em Juiz de Fora expõe mapa do risco: Bahia tem 8,5 milhões de moradores expostos

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Camila Souza/GOVBA

Publicado em 26/02/2026 às 16:29 / Leia em 5 minutos

Os celulares dos moradores de Juiz de Fora dispararam na noite de segunda-feira (23) com o alerta da Defesa Civil avisando sobre o risco iminente de fortes chuvas. Sem uma estrutura plenamente organizada para emergências, parte da população permaneceu em casa, sem saber para onde ir. Dois dias depois, às 21h11 de quarta-feira (25), o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais confirmou 48 mortes provocadas pelo temporal na Zona da Mata, 43 em Juiz de Fora e 6 em Ubá. Havia ainda 19 desaparecidos.

A tragédia expõe um problema estrutural que se repete em diferentes regiões do país. Um ano antes, em fevereiro de 2025, a diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Regina Alvalá, já havia alertado, durante evento na Câmara Municipal, que 130 mil moradores de Juiz de Fora vivem em áreas suscetíveis a desastres relacionados ao clima. Em 2024, o município registrou dez ocorrências de risco de deslizamentos de terra, ocupando o 4º lugar no ranking nacional. O Cemaden, instituição federal que há 15 anos monitora cidades com áreas de risco, opera 24 horas por dia e envia alertas às defesas civis municipais.

O cenário mineiro ajuda a dimensionar o problema nacional. Segundo levantamento do Cemaden e do Ministério da Ciência (Unifesp), Minas Gerais lidera o ranking de estados com maior número de municípios suscetíveis a desastres. São 283 cidades, que concentram 13,2 milhões de pessoas, 64% da população estadual vivendo em áreas sob algum tipo de risco. O relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025”, divulgado em fevereiro, reforça que Minas é o estado com mais cidades sob risco durante o período chuvoso.

A Bahia aparece logo atrás de estados mais populosos, mas com números igualmente preocupantes. São 137 municípios baianos sob risco de desastre, onde vivem 8,5 milhões de pessoas, o equivalente a 60% da população do estado. Em termos proporcionais, seis em cada dez baianos estão em áreas suscetíveis a eventos como deslizamentos e enchentes, índice que coloca a Bahia entre os cinco estados mais expostos do país. O dado revela a dimensão do desafio, especialmente em um território marcado por cidades históricas, áreas costeiras densamente ocupadas e expansão urbana sobre encostas.

Em São Paulo, 172 municípios estão sob risco, reunindo 35,6 milhões de pessoas (80% da população). No Rio de Janeiro, 75 cidades concentram 15,3 milhões de habitantes em áreas vulneráveis, o equivalente a 95% dos fluminenses. Santa Catarina, com 207 municípios mapeados, tem 90% da população vivendo em áreas suscetíveis. Os números mostram que o problema atravessa diferentes realidades regionais.

Para o climatologista Jose Marengo, coordenador-geral de pesquisa do Cemaden e um dos 17 cientistas brasileiros mais citados no mundo, a combinação entre clima extremo e vulnerabilidade social agrava o quadro. “Com o aumento dos eventos climáticos extremos, que observamos em todo o mundo, e o aumento da vulnerabilidade, o cenário se complica cada vez mais”, afirma, em entrevista ao Valor Econômico. Ele explica que um desastre resulta da soma de três fatores: ameaça (a chuva intensa), exposição (casas em áreas de risco) e vulnerabilidade (idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida). “O pior que pode acontecer é que os extremos aumentem assim como a vulnerabilidade e a exposição. É o que está acontecendo agora”, alerta.

Juiz de Fora ilustra essa equação. O núcleo urbano se formou às margens do Rio Paraibuna e, com o tempo, expandiu-se morro acima. A cidade tem morros íngremes e rochas fraturadas, que facilitam a infiltração de água e o escorregamento de terra. Análise do Cemaden com o IBGE, realizada em 2018 a partir do cruzamento entre áreas de risco e dados do Censo de 2010, colocou o município entre os dez do país com maior número de moradores expostos a desastres naturais. “Se este era o número em 2018, hoje deve ser muito maior”, afirma Pedro Camarinha, diretor substituto do órgão. “A Ciência não trabalha com bola de cristal, mas quando a gente junta elementos como suscetibilidade, população morando em áreas de risco, vulnerabilidades, as baixas capacidades das Defesas Civis e o clima, esses hotspots emergem”.

O padrão se repete em várias cidades brasileiras, inclusive na Bahia, onde a ocupação de encostas, margens de rios e áreas de expansão urbana desordenada amplia a exposição a deslizamentos e alagamentos. Para Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da UFJF, mudar essa lógica é um desafio estrutural. Ele reconhece que, em situações de risco iminente ou após tragédias, podem ocorrer reassentamentos pontuais, mas avalia que são medidas limitadas. “Na prática, quem acaba definindo a ocupação do espaço nas cidades não são as prefeituras nem os governos estaduais, mas o capital imobiliário”, afirma. “Mas o poder público não pode se omitir.”

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