Em ateliê com vista para a Baía, Nádia Taquary transforma ancestralidade negra em arte contemporânea

Em ateliê com vista para a Baía, Nádia Taquary transforma ancestralidade negra em arte contemporânea

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Redação Alô Alô Bahia com informações da Casa Vogue

Uendel Galter via Casa Vogue

Publicado em 13/02/2026 às 09:35 / Leia em 5 minutos

No alto de um prédio às margens da Baía de Todos-os-Santos, em Salvador, o ateliê de 300 m² da artista baiana Nádia Taquary é onde memória, fé e ancestralidade ganham forma. Reformado pela arquiteta Ana Paula Magalhães e instalado na cobertura do nono andar, o espaço é luminoso, voltado para o mar e, simbolicamente, para Iemanjá, de quem a artista é filha. É ali, há quase duas décadas, que ela desenvolve esculturas e instalações que reverenciam o legado das mulheres negras e tensionam o olhar contemporâneo a partir de uma perspectiva afro-diaspórica.

“É impossível nascer aqui e não ser formado por essa africanidade forte, potente, viva, onde a presença da mulher negra é fundamental”, afirma Nádia sobre a Bahia, em entrevista à Casa Vogue. Mulher preta, nascida em Valença, no interior do estado, ela cresceu entre festividades ligadas à cultura de matriz africana, conexão que se tornaria eixo central de sua produção artística.

A mudança para Salvador ocorreu aos 17 anos. Na capital, formou-se em Letras pela Universidade Católica do Salvador (UCSal) e fez pós-graduação em Educação, Estética, Semiótica e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Embora não tenha seguido inicialmente uma carreira nas artes visuais, foi aos 40 anos, atravessando o luto pela perda de um ente querido, que mergulhou definitivamente na criação artística.

É no ateliê de frente pra Baía de Todos-os-Santos que a artista desenvolve grande parte de suas esculturas e instalações | Foto: Uendel Galter

No recolhimento daquele período, iniciou uma pesquisa sobre arte africana, começando pela joalheria afro-brasileira, com a qual teve contato no Museu Carlos Costa Pinto, detentor do maior acervo do tipo no Brasil. A penca de balangandãs, adorno tradicional usado por negras de ganho e forras na Bahia dos séculos 18 e 19, carregado de significados de fé e libertação, inspirou sua primeira obra, “Abre Caminhos”, videoinstalação que amplia em escala o amuleto prateado.

A centralidade da memória afrofeminina se desdobra na série “Oríkì” (do iorubá, orí, cabeça, e kì, saudação), composta por esculturas em bronze ou madeira cujas cabeças recebem penteados escultóricos de palha, búzios e miçangas. “É nessa reverência ao orí que me entendo como mulher negra brasileira, detentora desse legado, trazendo essa diáspora viva nos dias de hoje. Trata-se de um pensamento ao mesmo tempo ancestral e presente no aqui e agora”, pontua.

As chamadas “joias de axé” também aparecem em “Dinkas Orixás”, totens que evocam cores, atributos e símbolos do panteão iorubano. “As primeiras Dinkas que realizei são das Yabás [Rainhas Mães das religiões afro-brasileiras] Oxum, Iemanjá e Iansã, que trazem, respectivamente, o amarelo, o azul e o marrom. Cada cor conta uma história e evoca essas presenças”, explica.

Trabalho de Taquary reverencia o legado das mulheres negras | Foto: Uendel Galter

O processo criativo, segundo a artista, é guiado por intuição e espiritualidade. “Estou falando de energias muito fortes, então nunca é uma decisão racional, vem de uma conexão maior”. Essa lógica atravessa a exposição individual “Ònà Irin: Caminho de Ferro”, instalação imersiva dedicada a Ogum, orixá do ferro, da tecnologia e dos caminhos. A mostra, com curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos, reúne 22 obras e está em cartaz até 22 de fevereiro no Sesc Belenzinho, em São Paulo. A exposição já passou pelo Museu de Arte do Rio e pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, entre 2023 e 2024.

Outro eixo importante de sua produção são as Ìyámìs, grandes mães ancestrais da cultura iorubá, modeladas em bronze com referência à técnica de fundição Ashanti, trazida ao Brasil por ourives escravizados. Com feições de peixe, sereia ou pássaro, essas figuras ganharam projeção na mais recente edição da Bienal de São Paulo, intitulada “Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática”.

Na ocasião, as esculturas Mulher e Menina Pássaro circundavam a instalação “Ìrókó: A Árvore Cósmica”, criada especialmente para a mostra internacional. Inspirada na cosmogonia de matriz africana, a obra remete a uma gameleira monumental, com ramificações cobertas por centenas de milhares de miçangas de fibra de vidro. “Foram necessários nove meses e uma equipe de 25 mulheres para dar vida à árvore”, conta.

Foto: Uendel Galter

Atualmente, Nádia se dedica a um projeto sobre a obra de Mestre Didi, aprofundando ainda mais o diálogo com a tradição afro-brasileira. “Meu desejo é desconstruir o olhar único, descolonizar o pensamento e trazer novas percepções para que o maior número de pessoas acesse a nossa história e as narrativas que nos aproximam da potência que somos”, conclui a artista, sobre a missão que assumiu no mundo da arte.

Compartilhe

Alô Alô Bahia Newsletter

Inscreva-se grátis para receber as novidades e informações do Alô Alô Bahia