Beija-Flor levará à Sapucaí a resistência do Bembé de Santo Amaro

Beija-Flor levará à Sapucaí a resistência do Bembé de Santo Amaro

Redação Alô Alô Bahia

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Tiago Mascarenhas

Gerente (@gerente.rec)

Publicado em 03/02/2026 às 18:29 / Leia em 5 minutos

Na última segunda-feira (2), as paredes da histórica Casa de Dona Canô, em Santo Amaro da Purificação, testemunharam um encontro que costura o Rio de Janeiro ao Recôncavo Baiano. Entre a presença da anfitriã Maria Bethânia e da cantora e compositora Vanessa da Mata, integrantes da Beija-Flor de Nilópolis selaram uma aliança cultural e espiritual.

A visita não foi apenas protocolar; foi um mergulho na fonte. Em 2026, a agremiação carioca, conhecida por sua opulência técnica, despirá a Avenida para vesti-la com a sacralidade potente do Bembé do Mercado.

O enredo, intitulado simplesmente “Bembé”, se propõe a narrar um fenômeno social e religioso que desafia a lógica urbana há 136 anos. Todo dia 13 de maio, enquanto o Brasil oficial reflete sobre a Abolição, Santo Amaro subverte a data. Ali, a liberdade nunca foi uma concessão de papel, mas uma conquista de espaço.

Para entender a proposta da Beija-Flor, é preciso recuar ao ano seguinte à Lei Áurea. Em 1889, um babalorixá conhecido como João de Obá tomou uma decisão que, aos olhos da época, beirava a insanidade: tirar o candomblé dos terreiros escondidos e ocupá-lo no centro nervoso da economia local, o mercado.

A pesquisa desenvolvida pelos enredistas Bruno Laureato, Guilherme Niegro e Vivian Pereira, sob a batuta do carnavalesco João Vitor Araújo, foca exatamente nessa tensão política. Imagine realizar um ritual de matriz africana, à luz do dia, em praça pública, meses após o fim oficial da escravidão.

O Bembé nasceu não apenas como festa, mas como um ato político de existência. “O povo preto era livre no papel, mas não tinha proteção. Decidiu-se, então, ocupar a cidade levando a fé”, aponta a sinopse da escola.

Foto: @riocarnaval

Do caos do mercado ao sagrado

A narrativa que a Beija-Flor levará à Sapucaí na segunda-feira (16) de Carnaval, sendo a segunda escola a desfilar, busca capturar a atmosfera sensorial descrita pelos pesquisadores em suas visitas a Santo Amaro. O enredo foge da linearidade histórica fria para abraçar o que foi organizado no mercado.

É um local onde o cheiro do dendê se mistura ao das ervas frescas, onde a barganha comercial convive com a reza. Durante o dia, o profano e o sagrado dançam juntos entre capoeiras, maculelês e sambas de roda. À noite, os atabaques assumem o comando, e as barracas de feira tornam-se altares improvisados. É a “confusão” vital da cultura brasileira em sua essência mais pura.

Em entrevista ao CARNAVALESCO, Vivian Pereira, uma das pesquisadoras do enredo, descreveu a sensação de estar no mercado de Santo Amaro como um retorno a um lar ancestral, onde o chão parece pertencer a quem pisa. Essa percepção guiou a estética do desfile: a Beija-Flor não quer apenas contar a história do Bembé, quer transformar a Marquês de Sapucaí nesse mercado.

Foto: @riocarnaval

“Isso aqui vai virar macumba”

O samba-enredo escolhido para conduzir essa ópera popular não faz rodeios. Composto por um time de peso que inclui Sidney de Pilares e Claudio Russo, a obra abre com um aviso direto: “Atabaque ecoou, liberdade que retumba / Isso aqui vai virar macumba!”.

A letra é uma crônica do ritual. Cita o “xirê” (a roda de dança para os orixás), o “ebó” (oferenda) para proteção e a dualidade dos presentes entregues às águas: o balaio azul para Iemanjá, a senhora do mar, e o dourado para Oxum, a doçura das águas doces.

O refrão evoca a matriarca dos Veloso, cantando “É Dona Canô de todo recanto / Evoco a Baixada de Todos os Santos”, criando a ponte definitiva entre a família mais ilustre de Santo Amaro e a comunidade da Baixada Fluminense.

Ao escolher o Bembé, a Beija-Flor faz um movimento de “vanguarda ancestral”. Em tempos de debates sobre intolerância religiosa e racismo estrutural, a escola de Nilópolis olha para 1889 para mostrar que a ocupação do espaço público é a forma mais antiga de resistência negra no Brasil pós-abolição.

O encontro desta semana na Casa de Dona Canô, com a presença de ícones da MPB e do samba, serviu como uma espécie de batismo para o projeto. Quando a Beija-Flor pisar na Avenida em 2026, entre 23h20 e 23h30, não será apenas um desfile; será a tentativa de fazer o Rio de Janeiro entender o que Santo Amaro sabe há mais de um século: que a rua é o verdadeiro templo.

Foto: Gerente (@gerente.rec)

Ouça “Bembé”, samba-enredo da Beija-Flor para o Carnaval 2026:

 

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