Da zona rural para a Ufba: estudante de vila com mil habitantes é aprovada em 4º lugar em Medicina

Da zona rural para a Ufba: estudante de vila com mil habitantes é aprovada em 4º lugar em Medicina

Redação Alô Alô Bahia

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Gabriel Moura

Reprodução

Publicado em 27/01/2026 às 14:20 / Leia em 5 minutos

Da zona rural de Valente, no interior da Bahia, para um dos cursos mais disputados do país. A trajetória de Claryssa Oliveira, moradora de uma comunidade com cerca de mil habitantes, ganhou um novo capítulo ao conquistar o quarto lugar no curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba). A aprovação veio após três anos no Bacharelado Interdisciplinar em Saúde (BI), também cursado na instituição.

Residente da zona rural, Claryssa sempre estudou em escola pública. A adolescência foi marcada por uma rotina tranquila e pelo gosto pelos livros. Grande parte do ensino médio aconteceu durante a pandemia, período em que precisou adaptar os estudos ao ambiente doméstico.

“Estudei em casa pro Enem. A maior parte do meu ensino médio foi na pandemia, o que dificultou um pouco, mas a minha vontade de estar na Ufba me motivava e eu criei uma rotina de estudos em casa pelo YouTube”, contou em entrevista ao Alô Alô Bahia.

Ao ingressar no BI em Saúde, veio uma nova realidade. A rotina acadêmica se tornou desgastante, com semestres em que chegou a cursar até 11 disciplinas.

“Era uma rotina corrida com carga horária era muito intensa. Eu estudava sempre no horário oposto das aulas, durante todo o fim de semana e até nos intervalos de uma aula e outra para conseguir dar conta de tudo e manter o desempenho excelente”, relatou ela, que precisava manter notas altas em todas as disciplinas para conseguir a sonhada aprovação.

O ritmo acelerado reduziu quase a zero a vida social. “Saía muito pouco. Ia para a praia quando dava. Tanto que estou conhecendo agora a cidade de Salvador”, disse. A expectativa para a graduação em Medicina é de que a exigência continue alta, ainda que com o desejo de buscar mais equilíbrio. “Quero ser uma boa médica, mas sei que precisarei equilibrar as coisas e ter meus momentos de lazer. O que estará em jogo será meu futuro profissional”, afirmou.

A escolha pela Medicina, segundo Claryssa, não foi imediata. Pelo contrário, veio acompanhada de dúvidas e inseguranças. “Eu me questionei tanto que, em muitos momentos, cheguei a desacreditar que merecia conquistar esse sonho”, confessou.

A resposta, no entanto, estava na própria história familiar e afetiva. A avó, agente comunitária de saúde, foi sua principal referência.

“Eu cresci vendo ela deixar compromissos, abrir mão do próprio tempo para cuidar de outras pessoas. Ela participava de programas sociais, como a Pastoral da Criança, que ajudou muitas famílias a sair da desnutrição. Foi ali que eu aprendi, na prática, o que é cuidado”, lembrou. “Então um dia eu parei e pensei: é isso que eu quero pra minha vida. Eu quero cuidar”.

Desafios do BI
Os três anos no BI foram descritos como um período de intensa pressão emocional. Claryssa afirma que a cobrança por notas altas transforma o curso em uma experiência extrema.

“Muitas vezes, um 9,0 pode significar a distância entre continuar ou ver um sonho perdido. É como uma roda-gigante emocional”, disse. Segundo ela, o ambiente competitivo afeta a saúde mental de muitos estudantes. “Conheci muitos colegas que adoeceram mentalmente ao longo do curso. A exigência é enorme e, quando o que está em jogo é um sonho, o peso se torna ainda maior”.

Mesmo diante das dificuldades, Claryssa acredita que conseguiu atravessar o processo com resiliência. A vivência também moldou sua visão sobre saúde e formação profissional.

Por isso, ela critica a recente decisão da Ufba de impedir a migração de estudantes do BI para o curso de Medicina, medida adotada em meio a debates sobre saúde mental e concorrência excessiva. “Acho essa medida um pouco injusta”, avaliou. “O BI sempre foi uma alternativa para quem não consegue passar direto do ensino médio ou não tem estrutura financeira para esperar anos estudando em casa ou pagar um cursinho”.

Para Claryssa, o Bacharelado Interdisciplinar representa mais do que uma etapa acadêmica. “Se não fosse o BI, eu não sei como a minha história teria sido. Eu realizei meu sonho por causa deste curso”, afirmou.

Na visão dela, a formação interdisciplinar amplia o olhar dos futuros profissionais. “Apesar de todos os conflitos e desafios, o BI agrega imensamente à nossa formação, nos tornando mais críticos, mais sensíveis e, sobretudo, mais humanizados. Ele forma um olhar que vai além do hospital, mais atento às pessoas, aos territórios e às realidades que atravessam o cuidado em saúde”.

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