Dois jovens de Salvador alcançaram a nota máxima na redação do Enem 2025 e chamaram atenção por um detalhe incomum: um deles era aluno e o outro, professor no mesmo curso preparatório. Rodrigo Fortes, 22 anos, e Lucas Rodrigues, 21, descobriram na sexta-feira (16), com a divulgação dos resultados, que ambos haviam tirado mil na prova escrita do exame.
Lucas contou que vinha apresentando bom desempenho ao longo da preparação, mas afirmou que o resultado final surpreendeu. “Eu vinha tendo um bom desempenho no curso constantemente. Mas acho que ninguém espera o mil”, disse em entrevista ao site Guia do Estudante. Segundo ele, a nota máxima já havia aparecido em simulados, mas a confirmação no Enem não era algo dado como certo. “Tem quem pense que tirar mil é uma lenda urbana, mas no fim não foi uma lenda urbana para a gente”, afirmou.
O estudante pretende cursar Medicina na Universidade Federal da Bahia, mas disse que também avalia outras opções no Sistema de Seleção Unificada, como Odontologia. Rodrigo, por sua vez, é fundador do curso Fortes na Redação, criado em 2022. Ele relatou que o interesse pelo ensino da escrita surgiu ainda no Ensino Médio. “A gente aprende a gostar de escrever nessa fase. Só que eu peguei um gosto a mais, eu acho”, afirmou.
O professor contou que já esperava que algum aluno alcançasse a nota máxima, mas não imaginava que isso aconteceria duas vezes no mesmo ano, incluindo a própria redação. O tema da prova de 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, não causou insegurança em Lucas, que disse ter trabalhado assuntos semelhantes durante a preparação. “A gente teve um assunto bem parecido, algo sobre envelhecimento ativo de minorias, que não foi fácil de fazer, e ao chegar na prova pensei: ‘nossa, já escrevi sobre isso’”, relatou.
Rodrigo, graduando do último semestre de Letras na UFBA, atribuiu o desempenho ao método aplicado ao longo do ano. “Sempre pegamos tópicos mais gerais e colocamos em perspectivas mais aprofundadas. Porque caso o Enem cobre algo abrangente, como em 2025, o aluno já vai saber como dissertar sobre, seja o tema desafios, efeitos, caminhos, perspectivas ou até uma pergunta”, explicou.
Além do envelhecimento, outros assuntos foram trabalhados no curso, como cinema, saúde e arte, com foco em minorias. Para Lucas, a preparação foi decisiva. “Acho que não tinha como estar mais preparado do que estava. Não é por acaso que esse foi o resultado”, afirmou.
Apesar do mesmo tema, aluno e professor seguiram caminhos distintos na construção dos textos. Lucas direcionou a argumentação para a crítica ao Estado, enquanto Rodrigo abordou o papel da mídia e da família. O vestibulando iniciou a redação com o livro “A Casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, narrado por uma mulher de 68 anos. “Usei o texto para contextualizar, já que trata da perspectiva de uma idosa e do modo como a sociedade a enxerga”, explicou.
Na sequência, Lucas recorreu ao conceito de necropolítica, do filósofo Achille Mbembe, para tratar da negligência estatal, e citou uma frase do empresário Jim Collins para discutir a conduta do setor privado. “Finalmente, também usei uma frase de Jim Collins, um empresário norte-americano, que diz que o egoísmo é a doença do empresário, para explicar sobre a má conduta do setor privado”, disse.
Rodrigo abriu a própria redação com o filme “O Agente Secreto”, vencedor de dois Globos de Ouro. “É o nosso filme do momento. Trabalhei com a perspectiva de Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, porque no filme ela tem uma valorização muito grande enquanto pessoa idosa. Só que na realidade isso não acontece”, contou. Ele também utilizou referências ao curta-metragem “Meow!”, premiado em Cannes em 1982, e às ideias da psicoterapeuta Virginia Satir sobre relações familiares.
A regularidade nos estudos foi apontada como fator central para o desempenho. Lucas relatou que produzia uma redação por semana e fazia a reescrita na semana seguinte. “O Rodrigo sempre vinha com temas e a gente fazia uma redação por semana e a reescrita na semana seguinte. Ele chegava e eu pensava: ‘lá vem bomba’. Não esperava nada além disso”, afirmou.
O estudante destacou ainda a importância do equilíbrio entre estudo e vida pessoal. “Eu fazia academia semanalmente, o que inclusive me ajudava a manter os estudos na linha. Mas também não deixei de passar um tempo de qualidade com meus amigos e família, que tiram a minha cabeça do vestibular”, disse. Para ele, excesso de dedicação sem pausas poderia comprometer o rendimento.
Rodrigo compartilha da mesma avaliação e afirmou que a instabilidade da correção da redação exige atenção também ao bem-estar. “A gente sempre fala que o professor de redação é o que mais sofre de todos, porque é a única nota que é a mais instável, que pode acontecer de tudo, mesmo que se aplique estratégia”, afirmou. Ele disse que atividades físicas e psicoterapia fizeram parte da rotina para lidar com a pressão. “Vivemos uma cultura de produtividade tóxica, especialmente na internet. Temos acesso a muitos conteúdos ao mesmo tempo e a ansiedade explode”, comentou.
Segundo o professor, cuidar da saúde mental é fundamental tanto para quem estuda quanto para quem ensina. “Se você focar apenas nos estudos, enlouquece. […] Precisamos nos reinventar na educação para conseguir ensinar uma metodologia complexa a um aluno que muitas vezes não teve um preparo básico tão bom”, afirmou. Sobre o resultado do aluno, resumiu: “É um processo bem dificultoso, mas vale a pena. No fim, os resultados vêm”.
Lucas também destacou o papel das correções no processo de aprendizagem. “O medo de escrever foi algo que, por muito tempo, me travou. Então, a maior dica que eu posso dar é escrever constantemente e prestar atenção nas correções”, disse. Para Rodrigo, a formação do professor é um ponto central e ele criticou a atuação de pessoas sem preparo específico na área. “Você não vai se consultar com uma pessoa que não é médica, não vai buscar auxílio jurídico com uma pessoa que não é advogada. Então, por que você vai buscar auxílio educacional de redação com uma pessoa que não é professora de redação?”, questionou.
O docente afirmou que a influência das redes sociais ampliou a presença de influenciadores que nem sempre dominam a didática textual. “A gente sabe que a realidade do Brasil não é igual para todos, mas se você tiver condições, busque um cursinho ou um professor que entendam essa lógica, e valorizem esses profissionais”, concluiu.