A vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro, na noite deste domingo (11), coloca o ator baiano em um patamar inédito para o cinema nacional.
Ao levar a estatueta de Melhor Ator em Filme de Drama por “O Agente Secreto”, Moura consolida uma carreira que soube equilibrar prestígio intelectual, blockbusters internacionais e uma enorme popularidade na televisão brasileira.
Aos 49 anos, o caminho do artista até o palco do Beverly Hilton, em Los Angeles, começou bem longe dali: nos corredores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador.
Nascido em Rodelas, no sertão, e criado na capital baiana, Wagner se formou em Jornalismo e chegou a atuar brevemente como repórter em um programa de TV local. A experiência, segundo ele, foi fundamental para desenvolver seu método de pesquisa e construção de personagens.
Essa criança ganhou o Globo de Ouro hoje! Nessa época a cidade dele foi inundada por uma barragem do Rio São Francisco e a população teve que mudar pra outro lugar. Wagner Moura já nasceu esbanjando carisma e a câmera sempre o amou.#GoldenGlobes pic.twitter.com/sbmMU3khMu
— Dan Pimpão (@DanPimpao) January 12, 2026
Mas foi no teatro que sua carreira engrenou. Após vencer o Prêmio Braskem de Ator Revelação pela peça “Abismo de Rosas” em 1997, Wagner ganhou projeção nacional em 2000 com a peça “A Máquina”. Ao lado dos amigos Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, ele viajou o país e chamou a atenção de diretores de cinema e TV do eixo Rio-São Paulo.

Foto: Divulgação
A migração para o Rio de Janeiro e para o cinema foi natural. No início dos anos 2000, Wagner emendou trabalhos importantes. Esteve na coprodução internacional “Sabor da Paixão” (2000), ao lado de Penélope Cruz, e chamou a atenção de Walter Salles em “Abril Despedaçado” (2001).
Em 2003, viveu um ano prolífico, atuando em quatro longas, com destaque para as aclamadas performances nos clássicos “Carandiru” e “Deus é Brasileiro”. Sua versatilidade foi testada em séries como “Sexo Frágil” e na minissérie “JK” (2006), onde interpretou o ex-presidente Juscelino Kubitschek na juventude.
O auge da popularidade, no entanto, veio em 2007, junto à estreia da novela “Paraíso Tropical”, da TV Globo. Interpretando o vilão Olavo, Wagner roubou a cena no horário nobre. O personagem, marcado pelo cinismo e pelo romance com Bebel (Camila Pitanga), caiu nas graças do público, tornando-se um dos vilões mais memoráveis da teledramaturgia recente.
O sucesso na TV provou que o ator tinha carisma e “molho” para dialogar com as massas, indo muito além do circuito cult.
Naquele mesmo ano, ele mudou seu status de “grande ator” para “fenômeno cultural”. Sob a direção de José Padilha, Wagner deu vida ao Capitão Nascimento em “Tropa de Elite”. O filme não apenas venceu o Urso de Ouro em Berlim e arrastou multidões aos cinemas (com recordes de bilheteria na sequência de 2010), como provou que Moura tinha a visceralidade necessária para segurar uma franquia inteira.

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A projeção de Tropa abriu as portas do mercado externo. A estreia em Hollywood ocorreu em 2013, no filme “Elysium”. Mas a virada global veio em 2015, com a série “Narcos”, da Netflix. Para viver Pablo Escobar, ele transformou o corpo e aprendeu espanhol do zero. O esforço lhe rendeu sua primeira indicação ao Globo de Ouro em 2016. Na época, o baiano perdeu para Jon Hamm (“Mad Men”), mas ganhou o respeito da indústria.
Desde então, o ator soube jogar o jogo internacional sem perder a identidade. Dirigiu o polêmico “Marighella” (2019), atuou em blockbusters como “Guerra Civil” (2024) e séries de prestígio como “Sr. e Sra. Smith” (2024) e a recente “Ladrões de Droga” (2025), da Apple TV+, produzida por Ridley Scott, com quem Wagner revela ter tido longas conversas sobre cinema.
A vitória deste domingo tem um sabor especial de retorno. Em “O Agente Secreto”, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, Wagner volta a atuar em português, em uma trama ambientada no Recife de 1977.
O filme, que também levou o Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa e já havia rendido a Moura o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes, é a prova final de sua versatilidade.
Agora, todas as atenções se voltam para o dia 22 de janeiro, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas revela os indicados ao Oscar e o baiano pode compor a lista de Melhor Ator.

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