O baiano Fabrício Boliveira, que celebra seu primeiro protagonista de novela, o mocinho Jão, de Volta por Cima, da TV Globo, está se despedindo da trama das sete, escrita por Claudia Souto, que chega ao fim em 26 de abril. Durante abertura das gravações do folhetim nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, com a participação da CARAS Brasil, o ator revela o que o motivou a voltar para a telinha, fala da parceria com a atriz Jéssica Ellen (32) e entrega o que mais vai sentir saudade desse último trabalho.
Fabrício é famoso por papéis de destaque na TV, no teatro e no cinema. Na telona, fez sucesso em vários títulos, como Faroeste Caboclo (2013) e Nise: O Coração da Loucura (2014). Em novelas, atuou em Sinhá Moça (2006), A Favorita (2008), Tempos Modernos (2010), Suburbia (2012), Boogie Oogie (2014), entre outras produções da emissora carioca.
Questionado sobre voltar à TV aberta com um personagem tão popular, ele destaca: “A minha ideia de voltar a fazer novela, é que eu queria ter uma relação diretamente com o povo, queria falar com o meu povo brasileiro, propor coisas, ouvir coisas, estudar coisas, dialogar horizontalmente, sabe?”.
“E está sendo um sucesso absoluto, porque as pessoas me trazem as questões que o Jão propõe de paternidade, por exemplo. Então, ouvi muito nas ruas e de pessoas que trabalham próximas a mim, que eu não sabia que tinham questão com paternidade, com os filhos que não veem, com os pais que eles não tiveram (…). Pessoas na rua me param para me contar histórias do filho que abandonou e que quer voltar a ver novamente. Enfim, acho que está sendo muito, muito positivo. Propor coisas e ver se as coisas retornarem para mim é o diálogo perfeito, sabe?”, continua.
Fabrício também ressalta o impacto que o casal Madela (Jéssica Ellen) e Jão provocou no público. “As pessoas falam muito na rua, e é muito interessante pensar que para um personagem feito por um homem negro de dread, a questão hoje é com quem você vai ficar, quem você está amando, é sobre os fetos do Jão, sobre com quem ele está apaixonado, se relacionando (…) Acho isso muito novo, porque geralmente, para pessoas negras, sempre estava em um lugar de sobrevivência. Eram pessoas que tinham que correr, fugir ou atacar para sobreviver; e hoje em dia está se falando sobre essas subjetividades: você ama mais essa ou ama aquela? Isso é uma beleza da gente pensar”, diz.
O ator detalha a repercussão nas ruas. “A grande questão que pegou o povo brasileiro – eu não parava de ouvir na rua – era: ‘Volta pra Madá’; isso, o tempo inteiro. Então, você pensar que ela (escritora) conseguiu discutir afeto, aprofundar lugares de afeto – a grande questão da novela, durante um tempo, era afeto – é tão bonito. O público quer ver, está necessitado de ver, o público vive isso também em suas vidas, e quer se ver também nessas questões (…) Relação (de seu personagem) com o pai, de como muda esse afeto: de um cara que era o patrão e ele (Jão) descobre que é o pai dele, e aí tem uma rusga, e como isso, vai se modificando, como o Edson (Ailton Graça) se modificou. Esse personagem se modificou na história também, para poder ter esse filho de volta. É bonito de pensar”, salienta.
SOBRE A NOVELA
No bate-papo, Fabrício Boliveira ainda fala sobre o impacto social que a novela Volta por Cima tem provocado. “Está sendo uma obra de sucesso, de sucesso fora, de repercussão, mas interno também. Muito prazer de trabalhar com esses atores, de trabalhar com essa direção, com essa autora. E todas essas forças que a gente tem recebido do público, que é sempre de empatia, de reflexão a partir das coisas que a gente propõe dentro da obra, de outras obras que estão sendo escritas, pessoas escrevendo sobre a novela (…) Isso, para mim, é tipo o ápice do que a gente espera quando a gente entra num trabalho – é que ele repercuta no público, mas que também as pessoas falem a respeito; e que isso, de algum jeito, entre e consiga, não sei se modificar, mas trazer novos elementos dentro do nosso social”, aponta.
“Por exemplo, como você falou, a coisa de se passar dentro de uma empresa de ônibus. Isso tem trazido uma série de discussões sobre o lugar desse motorista, o lugar desse fiscal, o cobrador, que já não existe mais e essa função passou para o motorista. Isso tudo abre discussões sobre precarização do trabalho hoje. Então, de algum jeito, a gente está conseguindo inserir e trazer algumas reflexões para o nosso social, para a nossa comunidade”, acrescenta.
Para o baiano, o lugar de seu personagem na trama tem provocado reconhecimento popular. “E reconhecimento negro, de virtudes brasileiras, de lugares que a gente também traz com a gente e que, de algum jeito, ficou meio cafona e você ser empático, olhar para o outro com horizontalidade. Então, acho que de algum jeito esse personagem aviva dentro da gente coisas, sentimentos, relações que a gente tinha como brasileiros também”, reflete.
“Se a gente for pensar nas pessoas dentro do subúrbio e a comunidade que eles formam ali dentro de ajuda, de preocupação com o outro, acho que isso são características nossas brasileiras, que de algum jeito a gente está conseguindo ver espelhada na televisão, na novela, e avivando na gente de: pô, eu também sou assim, eu também penso coisas parecidas, eu também abro mão de coisas pra estar com outras. Enfim, acho que a novela está conseguindo repercutir bem dentro do social”, emenda o ator.
MADALENA E JÃO
Fabrício também faz uma análise sobre os protagonistas Madela e Jão. “São personagens muito bem escritos. E essa coisa deles começarem meio numa rusguinha e isso vai virando um amor, virando tesão, acho que também provoca no público ‘ olha, como pode acontecer a junção de um casal’. E acho a Jéssica uma ótima atriz, a gente gosta de jogar dentro da coisa de casal, das minúcias que a gente vai trazendo dentro de outras coisas que a gente sabe da história e traz para aquela cena (…) A gente improvisa muito. Foi tudo afinando entre a gente, sabe? Essa abertura que a gente tem um com o outro e para o jogo do outro, respeito, admiração, prazer de estar junto. Acho que o público sente isso”, comemora.