Aos 17 anos, Rute Conceição Silva Rodrigues, estudante de uma escola pública de Fortaleza, no Ceará, foi aprovada em quatro universidades internacionais para cursar Psicologia. Filha de uma trabalhadora doméstica que não teve acesso à educação formal, a jovem cresceu no bairro do Pirambu e conquistou vagas em instituições dos Estados Unidos, da Inglaterra e dos Emirados Árabes Unidos. Apesar das aprovações, ela ainda considera estudar Medicina no próprio estado.
Rute recebeu cartas de aprovação da Universidade Harvard, da Universidade Estadual da Pensilvânia, ambas nos Estados Unidos, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e da New York University Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A estudante está concluindo o Ensino Médio na Escola Estadual César Cals e atribui parte de sua trajetória ao apoio da família e dos professores.
A mãe de Rute trabalha como camareira e diarista para sustentar a família. Sem ter tido a oportunidade de estudar, ela sempre incentivou os filhos a aproveitarem as possibilidades de acesso à educação. Em entrevista à Secretaria da Educação do Ceará, a adolescente destacou a importância desse apoio. “Minha mãe trabalha como camareira e faz faxina. Ela diz: ‘vocês têm a oportunidade que eu não tive’, referindo-se a mim e ao meu irmão mais novo. Sempre recebi muito apoio da minha família e da escola. Por isso, meu diploma não será só meu, mas da família toda. É o esforço de toda uma geração”, contou.
A preparação para as candidaturas incluiu dois anos de estudos de inglês no Centro Cearense de Idiomas, em Fortaleza, além de cursos preparatórios e taxas de inscrição financiados, em parte, com recursos do programa federal Pé-de-Meia. Rute economizou cerca de 800 dólares, aproximadamente R$ 4,3 mil, para se candidatar a 20 universidades. Durante o processo, precisou escrever 60 redações, participar de entrevistas e realizar o SAT, exame utilizado na seleção de estudantes por instituições norte-americanas.
“Eu sempre gostei bastante de estudar. Acho que é muito importante gostar de estudar para encarar o processo. E o Pé-de-Meia também foi super importante para custear alguns cursos”, explicou a estudante.
Outro ponto importante do currículo foi a participação em um projeto de iniciação científica desenvolvido na escola. Ao lado de colegas, Rute pesquisou o discurso de criadores de conteúdo relacionados à educação. O trabalho foi apresentado em feiras científicas em Fortaleza e no Paraguai, e uma nova apresentação estava prevista para novembro, em Recife.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, a jovem explicou que a escola oferece aos alunos do segundo ano do Ensino Médio a oportunidade de desenvolver projetos científicos. “A minha escola já fornece, no segundo ano, um projeto em que a gente começa a trabalhar a iniciação científica. A gente criou um projeto científico do zero. Foi crucial para ser o meu melhor extracurricular”, afirmou.
Mesmo com as quatro aprovações internacionais, Rute ainda não definiu onde vai estudar. A jovem também pretende prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e tem o sonho de cursar Medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC), com o objetivo de se tornar neurocirurgiã. Caso consiga uma vaga na instituição, poderá abrir mão das oportunidades no exterior.
“Se passar no Enem, pretendo ficar aqui, porque acho muito importante estar no nosso estado e ser valorizado por isso”, declarou.