A primeira pessoa a quem Daniel Dornelas, de 24 anos, quis mostrar o livro de sua formatura em Medicina foi o pai, Aparecido Dornelas, de 47. Lavrador em Santa Bárbara do Leste, em Minas Gerais, ele voltava da roça quando recebeu o álbum das mãos do filho. Os dois folhearam juntos as fotos da conquista e acabaram emocionados.
A simplicidade do encontro aparece em um dos momentos registrados no vídeo. Ao olhar para as próprias mãos, ainda sujas do trabalho no campo, Aparecido hesita antes de tocar no livro. “Tô com a mão suja, vai sujar”. Daniel responde: “Pode pegar”. Pouco depois, o pai chora ao ver a formatura do filho, enquanto Daniel também se emociona. Em outra imagem, os dois aparecem no meio da lavoura, com o livro aberto e a lua ao fundo. Ao resumir o significado daquele momento, o médico escreveu: “Vencemos!”. O vídeo, publicado na semana passada, já ultrapassou 2,7 milhões de visualizações. “Daquelas imagens que nunca serão apagadas da memória”, disse Daniel em entrevista ao Só Notícia Boa.
A trajetória até a Medicina começou ainda na infância, na zona rural de Santa Bárbara do Leste. Daniel estudou em escola pública e conseguiu uma bolsa para cursar Medicina no Centro Universitário de Caratinga (UNEC). O pai trabalha como lavrador e recebe por diária pelos serviços realizados em propriedades da região. Durante os anos de faculdade, Aparecido repetia ao filho que continuaria trabalhando no campo para que ele pudesse estudar. “Ele sempre disse que seguraria a enxada para que eu segurasse a caneta. Assim fez. Vencemos!”, escreveu Daniel ao publicar o registro no perfil @lendocomdaniel.
A escolha pela Medicina também está ligada à história de Davi, irmão gêmeo de Daniel, que morreu em 2024, aos 22 anos, após viver com a Síndrome de Rasmussen, uma doença rara. “Escolhi ser médico por influência de Davi, meu irmão gêmeo. Davi viveu 22 anos com uma doença rara (Síndrome de Rasmussen), partiu em 2024”, contou. Daniel afirma que a convivência com o irmão influenciou sua decisão de seguir a profissão. “Nós fomos muito felizes juntos. Davi me ensinou que a vida é um verdadeiro milagre e, mesmo que ele não esteja aqui, há muitos outros Davis que precisam de cuidado”, lembrou.
Além da Medicina, Daniel mantém uma relação com a escrita. Em 2024, publicou o livro “Para morrer como um passarinho”, inspirado em experiências vividas com pacientes em cuidados paliativos durante a formação. Ao explicar por que decidiu compartilhar o momento com o pai, o médico destacou o desejo de alcançar outros estudantes que enfrentam dificuldades semelhantes às que encontrou pelo caminho. “Para que outros estudantes pobres e de escolas públicas saibam que é possível. Simples assim. Nós também podemos sonhar alto e realizar!”. Em outra publicação, resumiu a própria trajetória: “Pode o filho de um lavrador ser médico? SIM! Sou prova viva de que SIM!”.