Muito antes de Anitta assumir o posto de rainha de bateria da Grande Rio, outra artista já havia ajudado a transformar a relação entre mulheres e a bateria das escolas de samba. Eloína dos Leopardos, aos 80 anos, foi responsável por entregar a coroa à cantora durante a cerimônia realizada neste domingo (20), no Rio de Janeiro.
O encontro entre as duas gerações resgatou uma trajetória que começou há cinco décadas. Em 1976, Eloína desfilou à frente dos ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis, em uma época em que a função ainda não tinha o formato que se tornou tradicional no Carnaval.
A presença dela na escola aconteceu por iniciativa de Joãosinho Trinta. O carnavalesco conheceu Eloína depois que ela participou de um concurso em um baile de Carnaval e decidiu convidá-la para o desfile. À frente da bateria no enredo Sonhar com Rei Dá Leão, ela ajudou a Beija-Flor a conquistar o título daquele ano.
A participação abriu um novo capítulo na história da folia. Eloína permaneceu na agremiação até 1978 e é reconhecida pela própria Beija-Flor como a primeira rainha de bateria do Carnaval e a primeira rainha transgênero da festa.
Mas a relação com o samba é apenas uma parte da carreira da artista. Eloína nasceu no Rio de Janeiro, em 1945, e começou no teatro trabalhando nos bastidores, como camareira de vedetes. Depois, passou a atuar nos palcos.
Durante a ditadura militar, em 1969, deixou o Brasil e seguiu para Paris, onde continuou trabalhando como artista. Anos mais tarde, de volta ao país, criou a Noite dos Leopardos, espetáculo que ficou conhecido pela sensualidade e pela presença de homens nus e permaneceu em cartaz no Rio por cerca de dez anos.
Eloína também integrou Divinas Divas, projeto que reuniu nomes da primeira geração de artistas travestis brasileiras.
Agora, aos 80 anos, ela voltou ao centro da cena carnavalesca para coroar Anitta, em um momento que colocou lado a lado duas gerações de artistas que ajudaram a ampliar a presença feminina e trans na história da folia carioca.