Os brasileiros mais ricos atingiram em 2024 a maior participação já registrada na renda nacional, segundo estimativas baseadas em declarações do Imposto de Renda. O avanço ocorreu durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, em um período marcado pela combinação de juros elevados, expansão da dívida pública e crescimento da renda financeira, enquanto emprego, salários reais e programas sociais contribuíram para melhorar as condições na base da distribuição.
O contraste aparece quando os dados tributários são comparados ao índice de Gini, principal indicador utilizado para medir a desigualdade de renda. Lula tem citado o resultado de 2024, quando o indicador atingiu o menor nível da série histórica, e a alta do emprego como evidências da melhora das condições econômicas para os brasileiros mais pobres. As informações do Imposto de Renda, porém, permitem observar com maior precisão os rendimentos financeiros, que são mais concentrados entre as famílias de maior renda.
Estimativas do pesquisador de desigualdade Sergio Gobetti, elaboradas a partir dos dados abertos pela Receita Federal, apontam que o 0,1% mais rico da população aumentou sua participação na renda nacional de 10,2%, em 2020, para 13,1%, em 2024. Quase um terço desse aumento veio da renda financeira, principalmente dos ganhos obtidos com investimentos em renda fixa. No mesmo período, o Banco Central elevou a Selic de 2% para 12,25% para combater a inflação no pós-pandemia e desacelerar a atividade econômica em meio aos estímulos fiscais do governo.
O efeito dos juros é particularmente relevante porque aproximadamente metade da dívida pública brasileira está vinculada à Selic por meio das LFTs, as Letras Financeiras do Tesouro Nacional. Com uma taxa básica mais elevada, o custo de financiamento do governo aumenta e também crescem os pagamentos aos investidores que possuem esses títulos. Como as famílias de renda mais alta concentram uma parcela maior dos ativos financeiros, elas acabam recebendo proporcionalmente mais desses rendimentos. “Quanto mais eu subo os juros, mais renda o detentor da LFT tem”, afirmou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao Senado em maio.
Para Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial, a política monetária precisou lidar com uma política fiscal “ultraexpansionista”, enquanto as preocupações com a trajetória da dívida pública elevaram o prêmio exigido pelos investidores para manter títulos brasileiros. “Se os benefícios concedidos pelo governo, por um lado, forem de fato bem direcionados, eles podem ter um efeito social positivo”, disse em entrevista a um grande jornal brasileiro. “Mas, por outro lado, a aritmética do endividamento não tem como ser contornada: ela joga na outra direção.”
O movimento de concentração não começou no atual governo e também ocorreu durante a administração do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo os dados apresentados, porém, ele ganhou força com o aumento da dívida pública e a maior dependência de títulos pós-fixados, em um cenário de preocupações fiscais e ambiente internacional mais difícil. Desde que Lula assumiu, a dívida bruta do governo geral subiu mais de 10 pontos percentuais do PIB, chegando a 82,5%. Ao mesmo tempo, o Tesouro estima que a participação das LFTs na dívida possa crescer quase 15 pontos percentuais e atingir até 53% neste ano. Com isso, os juros elevados incidem atualmente sobre um estoque maior de dívida e sobre uma parcela também maior de papéis diretamente atrelados à Selic.
A diferença entre as fontes de dados também ajuda a explicar por que os números de desigualdade podem apresentar resultados distintos. Marcelo Medeiros, professor de economia da Universidade de Illinois Urbana-Champaign, afirma que as pesquisas domiciliares utilizadas no cálculo do Gini captam melhor a renda do trabalho, mas tendem a subestimar ganhos financeiros, que aparecem de maneira mais abrangente nas declarações de Imposto de Renda. “O Gini reflete apenas uma parte da sociedade, a parte que não é muito rica”, afirmou a um grande jornal brasileiroo. “A desigualdade brasileira é determinada principalmente pela desigualdade que existe entre os ricos e entre os ricos e todo o restante da população.”
Dados da Receita Federal também mostram a dimensão do avanço da renda financeira. Uma análise da Reuters sobre o Imposto de Renda retido na fonte apontou que a arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outros ativos de renda fixa aumentou 325% entre 2020 e 2024, chegando a R$ 92,1 bilhões. O crescimento ficou muito acima do registrado na arrecadação sobre rendimentos do trabalho e outras categorias relevantes de tributação da renda. A Receita afirmou que a disparada ocorreu “principalmente em razão da elevação da taxa Selic”. O Ministério da Fazenda reconheceu que os juros mais altos provavelmente contribuíram para o resultado, mas destacou que decisões de alocação de carteira dos investidores também influenciam os números e que os dados tributários, isoladamente, não estabelecem uma relação causal definitiva.
Ainda não há dados detalhados das declarações de Imposto de Renda de 2025 para calcular como evoluiu a concentração de renda entre os mais ricos. A arrecadação sobre rendimentos de fundos de investimento e outras aplicações de renda fixa, entretanto, avançou mais 25% em relação a 2024, novamente acima do crescimento da arrecadação sobre rendimentos do trabalho e sobre juros sobre capital próprio (JCP). Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de redução dos juros em março, a instituição afirma que a Selic precisa continuar em nível restritivo para fazer a inflação anual, atualmente em 4,2%, retornar à meta de 3%. Economistas consultados em pesquisa semanal do BC esperam que a taxa, hoje em 14%, termine o próximo ano em 12%, indicando que o impacto dos juros sobre os rendimentos financeiros dos mais ricos ainda pode permanecer por algum tempo.