Maria Eduarda acreditou durante boa parte da vida que havia sido rejeitada pela mãe biológica. Aos 18 anos, depois de passar por um abrigo e deixar a casa dos pais adotivos, ela encontrou uma nova família em São Paulo. Aos poucos, também passou a contar sua história na internet. Foi por meio dessas publicações que uma busca iniciada há 19 anos finalmente chegou até Daiana, sua mãe biológica.
O reencontro foi preparado pela cabeleireira Josélia Cotrim, que conheceu Maria Eduarda, chamada de Duda, quando ela foi ao salão pela primeira vez para alisar o cabelo. Durante o atendimento, a jovem contou que havia sido colocada para adoção ainda bebê e que cresceu sem conhecer a mãe. A história foi compartilhada nas redes sociais e chegou até Alyne, responsável pelo perfil @search_angel, que realiza trabalho social de localização de pessoas. Ela conseguiu encontrar Daiana.
Antes disso, Duda havia relatado que passou por um abrigo antes de ser adotada. Segundo ela, os primeiros anos com a família adotiva foram tranquilos, mas a convivência se tornou mais difícil à medida que crescia e não correspondia às expectativas dos pais. A jovem afirmou ter sofrido agressões durante a infância e a adolescência. Uma vizinha chegou a denunciar a situação por suspeita de maus-tratos e cárcere privado. Duda contou que, em determinados períodos, ficava trancada e tinha acesso restrito a partes da casa.
Após a denúncia, Maria Eduarda retornou para um abrigo, onde permaneceu até perto dos 18 anos. Ao deixar o local e voltar para a casa dos pais adotivos, foi informada de que precisaria sair quando atingisse a maioridade. No aniversário de 18 anos, o pai a colocou em um ônibus para morar em outra cidade com uma mulher que havia aceitado recebê-la. Nessa época, Duda começou a publicar vídeos na internet sobre o que havia vivido. Uma mulher com deficiência visual conheceu sua história pelas redes sociais e passou a ajudá-la. Mais tarde, essa mulher, o marido e a filha acolheram Maria Eduarda em São Paulo. “Eles têm muito amor no coração. Isso nem parece real”, contou Duda a Josélia.
Foi durante o primeiro atendimento no salão que Josélia realizou o desejo de Duda de fazer o primeiro alisamento. Meses depois, o espaço foi escolhido para outra surpresa. Dessa vez, quem entrou para cuidar dos cabelos foi Daiana, sem saber que a filha estava próxima. Durante o atendimento, a mãe contou diante das câmeras o que havia acontecido 19 anos antes.
Daiana relatou que engravidou aos 12 anos, depois de fugir de uma realidade familiar difícil. Segundo ela, a mãe tinha problemas de saúde, o pai era usuário de drogas e ela cresceu com outros cinco irmãos. O companheiro com quem passou a viver, que ela acreditava que poderia ajudá-la, bebia e a maltratava. Quando Maria Eduarda nasceu, Daiana ainda tinha 12 anos. Segundo seu relato, “autoridades” foram ao hospital e retiraram a bebê de seus braços. “Tomaram a neném à força”, relembrou. Ela contou que chorou, abraçou a filha e tentou impedir que a levassem.
Mãe e filha foram encaminhadas para abrigos diferentes. Daiana afirmou que, mesmo separada da bebê, ia ao local todas as manhãs para retirar leite e conseguiu continuar amamentando Maria Eduarda naquele período. Os irmãos também foram levados para um abrigo. Mais tarde, Daiana fugiu do local com o então companheiro, depois que ele prometeu que trabalharia e ajudaria a recuperar a menina.
“Todo dia eu lembrava dela”
Daiana contou que tentou recuperar Maria Eduarda diversas vezes, mas não conseguiu. Ela ouviu que deveria desistir porque a menina já havia sido adotada. Com o passar dos anos, começou a procurar a filha pela internet, pesquisando o nome dela no Facebook, TikTok e em outras redes sociais na esperança de encontrar alguma pista.
“Todo dia eu lembrava dela, todos os dias”, afirmou. Os aniversários eram especialmente difíceis. “Todas as noites eu chorava por ela.”
Quando Josélia perguntou qual era o maior sonho que ainda tinha, Daiana respondeu que não buscava dinheiro ou bens. “Ver ela. O maior sonho da minha vida. Não tenho nem mais sonho. Riqueza, essas coisas… meu sonho é ver ela, só ela.”
O momento do reencontro começou quando Josélia perguntou o nome da filha. “Maria Eduarda”, respondeu Daiana. Com os olhos cobertos por um pano, ela não percebeu quando Duda se aproximou e ficou atrás da cadeira. Quando a proteção foi retirada, as duas ficaram frente a frente pela primeira vez em 19 anos. Mãe e filha se abraçaram e choraram.
Duda também descobriu naquele momento que a história que carregou durante a vida não correspondia ao que havia acontecido. Ela acreditava ter sido rejeitada pela mãe desde o nascimento, mas soube que Daiana havia tentado recuperar sua guarda e continuado procurando por ela.
“Eu sempre acreditei que eu tinha sido rejeitada desde que nasci”, escreveu Maria Eduarda. Depois de conhecer a história da mãe, porém, a jovem descreveu o reencontro de outra forma: “Eu não sei como, mas parece que o vazio que eu sentia, a dor da rejeição sumiu. Eu me sinto completa. Ela era o pedacinho que faltava no meu coração.”
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