Aos 12 anos, a amazona Beatriz Saraiva foi convocada para representar o Brasil no Campeonato Sul-Americano de Hipismo, que será disputado no Chile, em outubro. A conquista da jovem baiana, conhecida como Bibi, é resultado de uma trajetória que começou de forma despretensiosa, ainda durante a pandemia, quando ela tinha apenas 6 anos.
Na época, a família procurava uma atividade que permitisse à menina sair um pouco de casa e ter contato com o ar livre. O hipismo surgiu como uma possibilidade e, desde a primeira experiência, Bibi demonstrou que havia encontrado algo pelo qual realmente se apaixonaria.
“Não somos uma família tradicionalmente ligada ao hipismo. Na verdade, como mãe de menina, eu sonhava com balé, sapatilhas e tutus… Mas a aptidão de Bibi acabou sendo outra. Ela se apaixonou pelos cavalos e pelo esporte e, desde a primeira aula experimental, ela já desceu do cavalo perguntando quando seria a próxima aula. Foi ela quem demonstrou que queria seguir esse caminho”, contou a mãe, Clarissa, em entrevista ao Alô Alô Bahia.
O que começou como uma atividade ao ar livre rapidamente ganhou espaço na rotina da menina. Aos 7 anos, Bibi participou da primeira competição, ainda na escolinha, disputando a série de 0,40m. A partir daí, passou a encarar desafios cada vez maiores e a construir uma trajetória marcada por evolução técnica, dedicação e disciplina.
Um dos primeiros grandes desafios veio na preparação para a categoria de base. Por causa das regras de idade, Bibi precisava avançar rapidamente de altura e, em apenas um ano, passar pelas séries de 0,60m, 0,80m e 0,90m até chegar à série de 1,00m, na categoria Mini Mirim. “Ela se dedicou muito e conseguiu cumprir esse primeiro grande desafio da trajetória dela. Mostrou que ela tinha não apenas paixão pelo esporte, mas também capacidade de evoluir tecnicamente em um ritmo bastante intenso”, lembra a mãe.
Em 2025, mesmo tendo uma janela curta na categoria Mini Mirim, Bibi conseguiu resultados expressivos em competições estaduais e nacionais. Em apenas uma temporada na série de 1,00m, foi campeã do ranking da Federação Hípica da Bahia e do Circuito Norte-Nordeste. Também venceu o CSN4* Top Rider, em São Paulo, e encerrou o ano como campeã do CSN Copa do Brasil, em Curitiba, competição que reuniu campeões de diferentes estados brasileiros.
Já em 2026, veio mais uma mudança de categoria e de altura. A amazona, sempre com seu capacete rosa na cabeça, passou a disputar a Pré-Mirim, com saltos de 1,10m, e participou pela primeira vez das seletivas para o Campeonato Sul-Americano. A temporada trouxe novos aprendizados, adaptações e amadurecimento dentro e fora das pistas. “Vejo a convocação como o resultado de um conjunto de fatores, como a evolução técnica, os resultados que ela construiu, a experiência adquirida nas competições nacionais e, principalmente, a dedicação e a capacidade que ela demonstrou de enfrentar cada novo desafio”, afirma a mãe.
A trajetória também exigiu mudanças importantes na vida da família. A mudança para São Paulo fez com que Bibi precisasse se adaptar a uma nova cidade, escola, hípica, treinador e círculo de amizades.

Com apenas 12 anos, Bibi já acumula conquistas | Foto: Acervo pessoal
Conciliar a carreira esportiva com a vida de uma menina de 12 anos também é um desafio diário. Bibi estuda em período integral e mantém uma rotina que inclui, além dos treinos com os cavalos às quartas, sextas, sábados e domingos, preparação física com pilates e musculação.
Quando há competições no calendário, a rotina é reorganizada de acordo com as necessidades da atleta e dos cavalos. “A vida de uma aluna-atleta não é fácil. No final das contas, é uma escolha familiar. Muitas vezes precisamos priorizar o esporte em detrimento de outros eventos, lazer e compromissos sociais. Mas fazemos isso porque sabemos o quanto ela se dedica e o quanto esse sonho é importante para ela”, diz a mãe.
Para ela, tão importante quanto os resultados é o amadurecimento que o esporte proporcionou à filha. O hipismo exige tempo, estrutura, disciplina e, principalmente, uma relação de confiança entre atleta e cavalo. Ao longo dos anos, Bibi também precisou aprender a lidar com frustrações, mudanças de cavalos e competições que não saíram como o planejado.
A notícia da convocação para representar o Brasil foi recebida com alegria e também com uma dose de surpresa. Esta é a primeira vez que Bibi participa das seletivas para o Sul-Americano, o que tornava a possibilidade de classificação especialmente difícil. “Sentimos muito orgulho dela, por saber o quanto ela se dedicou e evoluiu para poder ser uma das selecionadas”, conta.
A convocação tem ainda um significado especial para a Bahia. Depois de 20 anos, o estado volta a ter uma atleta em um Campeonato Sul-Americano de Hipismo. “Para uma menina de 12 anos, vestir a camisa do Brasil é um sonho. Para nós, como família, é também a confirmação de que todo o esforço, todas as mudanças e todos os desafios fizeram sentido”, destaca a mãe.
Dois cavalos, um novo desafio
Nesta fase de transição, Bibi conta com dois conjuntos. Luluzinha Trapiche a acompanha desde as provas de 1,00m, enquanto Baral Zita passou a formar conjunto com a amazona nas provas de 1,10m. No hipismo, essa parceria é parte fundamental da preparação, já que o atleta não compete sozinho. “O hipismo traz um desafio muito particular em relação a outras modalidades, já que você não compete sozinho. É preciso construir um conjunto com seu parceiro, que é um ser vivo. Existe todo um processo de adaptação, confiança e conexão entre a amazona e o cavalo”, explica.
Até outubro, a preparação para o Sul-Americano seguirá em duas frentes. Bibi continuará participando de competições nacionais para manter o ritmo de prova, a consistência e a evolução técnica, enquanto os cavalos também passarão por um processo específico para a competição internacional.
“O animal precisa chegar em plena saúde e em boa forma física para enfrentar uma competição internacional desse nível. Existe toda uma preparação sanitária e logística para a viagem. O cavalo passa pelo período de quarentena e pelos protocolos exigidos para o embarque internacional, com acompanhamento veterinário, para garantir que esteja apto e em perfeitas condições de saúde para viajar e competir”, detalha Clarissa.
Assim, enquanto Bibi trabalha a preparação técnica e física, os cuidados com o cavalo seguem em paralelo para que o conjunto esteja pronto para representar o Brasil no Chile. E, embora já tenha alcançado uma conquista importante aos 12 anos, a jovem amazona, que tem Yuri Mansur e Stephan Barcha entre as referências no esporte, ainda olha para o futuro com ambição. “Ela sonha grande! Ela quer saltar 1,60m, competir em grandes concursos e, claro, continuar tendo a oportunidade de representar o Brasil em competições internacionais”, revela a mãe.