Com o aumento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil e no mundo, a necessidade de construir intervenções adaptadas às características de cada criança também cresce. Nesse cenário, a Inteligência Artificial começa a ser utilizada como ferramenta de apoio para reunir informações, acompanhar mudanças no desenvolvimento e auxiliar profissionais e famílias na identificação de sinais que podem exigir avaliação especializada.
Para Tatiane Chagas, fonoaudióloga especializada em Neurodesenvolvimento Infantil e Neurociência da Aprendizagem, fundadora e CEO da Estímulos Desenvolvimento Infantil, a tecnologia pode ampliar a capacidade de análise ao transformar dados obtidos ao longo do acompanhamento em informações mais organizadas e mensuráveis. “A Inteligência Artificial não substitui o afeto, o vínculo humano e a escuta sensível, que são pilares da intervenção precoce. Ela atua como um suporte qualificado à decisão clínica, ajudando a revelar onde estão as melhores oportunidades para expandir a comunicação, a interação social e as habilidades cognitivas da criança”, afirma.
Segundo a especialista, o acompanhamento contínuo por meio dessas ferramentas pode contribuir para a percepção de alterações sutis de linguagem, comportamento e interação. “O acompanhamento contínuo proporcionado por essas plataformas capta pequenas mudanças de linguagem, comportamento ou interação que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. Isso permite correções de rota mais rápidas e intervenções mais afinadas com cada fase do desenvolvimento”, explica.
A Estímulos Desenvolvimento Infantil desenvolveu o Estímulos IA, aplicativo com assistente de Inteligência Artificial voltado ao apoio na triagem de sinais de atenção relacionados ao desenvolvimento infantil. A plataforma utiliza um questionário adaptativo dividido em sete etapas, que incluem dados básicos, crescimento e alimentação, desenvolvimento e comunicação, comportamento e relações, saúde, segurança e ambiente, marcos do desenvolvimento e uma tela de análise. Com as informações fornecidas, o sistema gera uma análise orientativa sobre áreas como comunicação, cognição, aspectos socioemocionais, motricidade e autonomia, ajudando famílias, cuidadores e profissionais a avaliar a necessidade de buscar atendimento especializado.
Milla Schuckert, mãe de uma criança com TEA e usuária da ferramenta, afirma que a experiência com a tecnologia foi positiva. “Eu vejo a Inteligência Artificial no contexto do TEA não como uma solução mágica ou um substituto para o olhar clínico, mas como uma ferramenta de suporte com um potencial enorme, desde que usada com muita responsabilidade ética”, avalia.
Além do aplicativo, Tatiane também promove a mentoria “IA aplicada à Saúde e à Educação”, voltada a profissionais interessados em conhecer aplicações práticas da tecnologia em suas áreas de atuação. A proposta inclui ferramentas e estratégias para incorporar a Inteligência Artificial à rotina de trabalho de forma ética, segura e eficiente, sem substituir a avaliação e o julgamento dos profissionais responsáveis pelo cuidado. “A Inteligência Artificial já faz parte da transformação da saúde e da educação. A diferença está em como cada profissional escolhe utilizá-la. Mais do que conhecer uma tecnologia, é preciso descobrir como ela pode otimizar processos, ampliar possibilidades e contribuir para uma atuação ainda mais individualizada e eficiente no cuidado dos pacientes”, completa a especialista.