O Porto de Salvador está entre os terminais brasileiros que já operam próximos do limite recomendado para garantir eficiência e absorver imprevistos nas operações. Levantamento da consultoria Solve Shipping Intelligence, divulgada pelo Valor Econômico, mostra que o berço de atracação da capital baiana registra utilização de 64%, praticamente no teto de 65% recomendado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Embora ainda esteja abaixo do limite técnico, Salvador aparece em situação mais confortável apenas que grandes terminais como Suape (81%), Santos Brasil (79%), Navegantes (76%), Santos BTP (74%), Santos DPW (72%), Paranaguá (84%) e Itapoá (89%), que já operam acima do percentual considerado ideal.
O cenário reflete um problema estrutural da infraestrutura portuária brasileira. Desde 2013, nenhum novo terminal foi inaugurado no país. A expectativa é que o primeiro empreendimento desse período entre em operação ainda neste semestre, com a APM Terminals, no Complexo Portuário de Suape (PE).

Segundo Leandro Barreto, sócio-diretor da Solve Shipping Intelligence, a falta de expansão da capacidade contrasta com o forte crescimento da demanda. De acordo com a consultoria, a movimentação portuária no Brasil avançou 20% em 2024 e mais 10% em 2025, bem acima da média mundial de 4,5% nos dois períodos.
Apesar da previsão de R$ 10 bilhões em investimentos no setor até 2029, Barreto avalia que os recursos serão suficientes apenas para acompanhar o crescimento da demanda, estimada em cerca de 5% ao ano nos próximos cinco anos.
A recomendação da OCDE é que terminais utilizem, no máximo, 70% de sua capacidade e que os berços de atracação operem até 65%, preservando uma margem para lidar com situações como mau tempo, congestionamentos, falhas em equipamentos, problemas de documentação e atrasos de navios. Quando esses limites são ultrapassados, aumentam os riscos de filas, cancelamento de escalas e cobrança de demurrage, a sobretaxa aplicada pelas companhias marítimas pela sobrestadia das embarcações.
Além da capacidade dos terminais, outro ponto de atenção é a dragagem dos portos e canais de acesso, responsabilidade do poder público. A manutenção da profundidade adequada é considerada essencial para garantir a operação segura dos navios. Segundo Barreto, esse tipo de intervenção pode ser concluído entre seis meses e um ano, prazo inferior ao necessário para ampliar um terminal, cerca de três anos, ou construir uma nova estrutura, processo que pode levar de cinco a dez anos.