A cantora Maria Rita abriu o coração sobre um dos momentos mais delicados de sua trajetória pessoal: a descoberta da real causa da morte de sua mãe, a estrela da música brasileira Elis Regina.
Em participação no videocast “Conversa vai, conversa vem”, do jornal O GLOBO, a artista revelou que o choque de saber a verdade, ainda no início da adolescência, foi determinante para mantê-la integralmente afastada das drogas ao longo da vida, embora admita que não tenha o mesmo distanciamento em relação ao consumo de álcool.
Elis Regina faleceu no dia 19 de janeiro de 1982, aos 36 anos. Os laudos da época atestaram que a parada cardíaca sofrida pela cantora foi provocada por uma intoxicação aguda resultante da mistura de cocaína e bebida alcoólica.
Naquele momento, Maria Rita tinha apenas quatro anos de idade. Durante sua infância, o assunto pairava como um tabu dentro de casa, e a versão oficial contada à menina era a de que sua mãe tinha um “dodózinho no coração”.
A quebra desse silêncio ocorreu quando a artista tinha entre 12 e 13 anos. Aproveitando que o pai estava em uma viagem de trabalho e a avó havia ido cuidar dela, a jovem encontrou no fundo de um armário uma minibiografia de Elis, integrante de uma coleção chamada “Os Grandes Gaúchos”.
Acreditando que mantinha a leitura em segredo, Maria Rita escondia o livrinho debaixo do travesseiro. A avó, no entanto, já havia notado o livro durante a arrumação do quarto, mas optou silenciosamente por deixá-la continuar a leitura.
O choque veio na última frase da obra, que revelava a causa do óbito. “Tive uma reação violenta. Minha avó abriu a porta do meu quarto, botou a cabecinha assim para dentro, ficou me olhando. Eu falei: ‘Vó, é verdade?’. Na troca de olhar, entendi que ela sabia que eu estava lendo e deixou”, relatou a cantora, explicando que o episódio criou um laço de confidência inédito entre as duas.
A desconstrução de um estigma
Apesar de finalmente conhecer a verdade, a assimilação do fato foi turbulenta para a mente de uma pré-adolescente. O Brasil vivia uma forte campanha nacional antidrogas, o que fez com que Maria Rita passasse a questionar o próprio caráter da mãe, associando o uso de entorpecentes a alguém “do mal” ou “péssimo”.
A paz de espírito só foi alcançada anos mais tarde, durante um estágio em uma revista. A diretora da publicação, que era uma grande amiga de Elis Regina, percebeu a confusão na cabeça da jovem e fez questão de limpar esses estigmas.
A jornalista esclareceu que a morte foi uma fatalidade, explicando que Elis não tinha o hábito de usar entorpecentes e era considerada “careta”, mas acabou experimentando em um contexto onde o uso era banalizado por muitos.
Além de desmistificar a relação da estrela com as drogas, a amiga varreu qualquer dúvida sobre o amor materno, enfatizando a paixão absoluta e específica que a cantora nutria por Maria Rita, além do amor pelos outros filhos.
A conversa foi um divisor de águas que, segundo a própria Maria Rita, salvou a sua cabeça. Reconhecendo ter uma personalidade intensa e entendendo os riscos, a artista tomou a decisão de adotar uma postura de extrema cautela, celebrando a escolha de vida que mantém até hoje: “Sou careta com orgulho”.