“Anatomia do Caos”: filme de cineasta baiana chega aos cinemas revisitando os bastidores da CPI da Covid

“Anatomia do Caos”: filme de cineasta baiana chega aos cinemas revisitando os bastidores da CPI da Covid

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Reprodução

Publicado em 30/06/2026 às 15:01 / Leia em 5 minutos

Depois de estrear no cinema de ficção com “Meu Nome É Gal”, cinebiografia de Gal Costa protagonizada por Sophie Charlotte, a diretora baiana Dandara Ferreira retorna às telas com uma proposta radicalmente diferente. Em cartaz a partir desta quinta-feira (2), data simbólica da Independência do Brasil na Bahia 2 de Julho, “Anatomia do Caos” transforma os bastidores da CPI da Covid em um documentário político que busca preservar a memória de um dos períodos mais traumáticos da história recente do Brasil.

Com acesso inédito ao Senado durante os trabalhos da comissão parlamentar de inquérito, Dandara constrói um filme que combina imagens exclusivas dos bastidores, documentos, entrevistas com parlamentares e depoimentos de familiares de vítimas da Covid-19. O resultado é um registro que ultrapassa o relato cronológico dos acontecimentos para investigar como decisões políticas, discursos públicos e a disseminação de desinformação impactaram a condução da pandemia.

Mais do que narrar os fatos, o documentário aposta na força das imagens. Em diversos momentos, o constrangimento fala mais alto que qualquer narração. Cenas como a do então ministro Eduardo Pazuello demonstrando dificuldade para localizar documentos durante seu depoimento, ou da médica Nise Yamaguchi sem conseguir responder a questionamentos técnicos sobre temas que defendia publicamente, sintetizam a tensão vivida na CPI.

Dandara Ferreira | Foto: Roberto Stuckert

Há ainda registros que mostram Jair Bolsonaro recorrendo repetidamente à Bíblia em pronunciamentos, inclusive consultando trechos durante discursos, evidenciando um estilo de comunicação que marcou aquele período. Falando no o então presidente, embora ele ocupe naturalmente o centro da narrativa por ter sido presidente durante a crise sanitária, o documentário evita transformá-lo em protagonista absoluto.

A própria diretora deixa claro que seu interesse está em algo maior: compreender uma estrutura de poder e como as decisões políticas atravessam a vida das pessoas. “A ideia inicial não era fazer um filme sobre uma pessoa específica, mas sobre uma estrutura de poder e sobre a relação entre política e vulnerabilidade social”, explica Dandara. “O filme não é sobre Bolsonaro, mas ele é uma figura central porque ocupava a Presidência durante a crise sanitária. A história é sobre um país, uma estrutura de poder”, diz.

Essa perspectiva amplia o alcance da obra, que utiliza a CPI como palco de uma tragédia nacional. Para a diretora, não se tratava apenas de registrar episódios de negligência, mas de revelar como, segundo sua leitura, o discurso oficial ajudou a produzir um ambiente de desinformação que colocava a ciência em xeque. “O que me movia naquele momento era a percepção de que o país atravessava algo maior do que uma crise sanitária. Havia uma disputa brutal em torno da própria realidade”, afirma.

O filme também lança luz sobre um aspecto recorrente das CPIs brasileiras, que é a sensação de impunidade ao fim das investigações. Sem apresentar respostas definitivas, a narrativa provoca o espectador a refletir sobre memória, responsabilização e justiça, questionando o que permanece sem solução anos após a pandemia.

Nesse sentido, “Anatomia do Caos” funciona melhor quando evita o didatismo e permite que os próprios registros falem por si. As imagens de bastidores e os depoimentos reunidos oferecem um retrato contundente do ambiente político da época e ajudam a compreender a dimensão institucional da crise sanitária.

Ao mesmo tempo, o documentário dificilmente altera a percepção de quem já conhece os acontecimentos. A pandemia, suas consequências devastadoras e o impacto da condução política daquele período já fazem parte da memória coletiva dos brasileiros. O mérito da obra está menos em revelar fatos inéditos do que em organizá-los sob uma perspectiva cinematográfica consistente, preservando um importante registro histórico.

Foto: Reprodução/Anatomia do Caos

Lançado às vésperas das eleições de 2026, o documentário inevitavelmente dialoga com um ambiente político novamente polarizado. Dandara, no entanto, afirma que seu objetivo não é falar apenas aos já convencidos, mas estimular um debate mais amplo sobre memória e democracia. “Esse filme nasce da necessidade pessoal de registrar esse período e da certeza de que algumas imagens precisam continuar abertas, porque elas ainda nos olham de volta”, resume a cineasta.

Com distribuição da Descoloniza Filmes, “Anatomia do Caos” estreia acompanhado de sessões especiais seguidas de debates com a diretora em cidades como Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Fortaleza, Manaus e Curitiba. Na quarta-feira (1º), o filme ganha uma sessão especial em Salvador, no Cine Glauber Rocha, e, na sexta-feira (3), será exibido na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Ambas as sessões serão seguidas de debate com Dandara Ferreira. Com um amplo circuito de exibições especiais, a proposta é transformar as salas de cinema em espaços de diálogo e reflexão coletiva sobre a história recente do país.

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