A memória e a urgência: a anatomia do Mês do Orgulho

A memória e a urgência: a anatomia do Mês do Orgulho

Redação Alô Alô Bahia

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Tiago Mascarenhas

Divulgação/Stonewall Inn Gives Back

Publicado em 01/06/2026 às 08:23 / Leia em 4 minutos

O calor na madrugada do dia 28 de junho de 1969, no Greenwich Village, em Nova York, era sufocante. Na rua Christopher, o Stonewall Inn funcionava como um refúgio imperfeito. Operado pela família mafiosa Genovese, o estabelecimento não tinha saída de emergência, operava sem licença para vender bebida alcoólica e servia drinques diluídos a preços inflacionados. Ainda assim, era um dos poucos espaços na cidade onde pessoas gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais podiam se reunir, dançar e existir publicamente, ainda que sob a sombra constante da extorsão e da violência policial.

Batidas policiais eram uma rotina burocrática e violenta na época. A lei permitia a prisão de qualquer pessoa que não estivesse vestindo pelo menos três peças de roupa “apropriadas ao seu sexo biológico”. Naquela madrugada específica, contudo, a rotina foi quebrada. Quando a polícia invadiu o bar, as viaturas demoraram a chegar para transportar os detidos. A multidão, formada por frequentadores expulsos e moradores do bairro, começou a se aglomerar do lado de fora.

O estopim histórico tem contornos difusos, mas relatos convergem para o momento em que uma mulher lésbica, frequentemente identificada como Stormé DeLarverie, foi agredida com um cassetete na cabeça por um policial enquanto era empurrada para dentro de um camburão.

Ela olhou para a multidão e gritou, exigindo que fizessem alguma coisa. A resposta foi imediata. Moedas, garrafas, pedras da rua e tijolos começaram a voar em direção aos oficiais, que, surpreendidos pela fúria de um grupo historicamente subjugado, precisaram se barricar dentro do próprio bar. A rebelião de Stonewall se estendeu por seis dias de confrontos nas ruas do Village, alterando permanentemente a dinâmica do movimento social.

Junho se tornou o Mês do Orgulho não por um decreto burocrático, mas como um esforço de preservação de memória. Exatamente um ano após o levante, em 28 de junho de 1970, a ativista bissexual Brenda Howard, frequentemente chamada de “A Mãe do Orgulho”, organizou a Christopher Street Liberation Day March. Foi a primeira marcha do gênero, ramificando-se simultaneamente para cidades como Los Angeles e Chicago.

A escolha da palavra “orgulho” (pride) foi deliberada. O ativista Craig Schoonmaker, um dos organizadores das primeiras passeatas, argumentou na época que “poder” não era uma palavra adequada, pois o grupo não detinha poder político ou econômico. No entanto, o antídoto direto para o veneno da vergonha social e institucional imposta a eles era o orgulho.

Cinquenta e sete anos depois de Stonewall, a efeméride de junho é marcada por paradas festivas e campanhas corporativas ao redor do globo. Contudo, sob o verniz da celebração, os dados revelam que a matriz original de sobrevivência de Stonewall permanece dolorosamente atual, especialmente no contexto brasileiro.

Os levantamentos sistemáticos conduzidos por organizações civis desenham um mapa estatístico sombrio. Segundo dados consolidados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e relatórios históricos do Grupo Gay da Bahia (GGB), o Brasil sustenta, há mais de uma década consecutiva, a posição de país que mais assassina pessoas trans e travestis no mundo, superando nações com legislações abertamente hostis. A expectativa de vida de uma mulher trans brasileira orbita em torno dos 35 anos, menos da metade da média da população geral estipulada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números da violência letal, somados às taxas de evasão escolar e à exclusão do mercado de trabalho formal, explicam a natureza política que ainda alicerça o mês de junho. Enquanto em determinados recortes sociais a data assume ares de festival, na concretude dos dados e das ruas, o Mês do Orgulho segue operando em sua frequência original.

Trata-se de um movimento de ocupação do espaço público para atestar a existência e exigir o direito inegociável à vida e à integridade. A marcha que começou com tijolos arremessados contra viaturas nos Estados Unidos traduz-se, no presente, na exigência de políticas públicas estruturantes e na recusa à invisibilidade estatística e social.

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