Uma baleia-jubarte que costumava frequentar o Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia, entrou para um novo recorde mundial de deslocamento da espécie após ser identificada na costa leste da Austrália. O caso foi divulgado em estudo publicado nesta semana na revista científica Royal Society Open Science e revelou um intercâmbio inédito entre baleias do Brasil e da Austrália.
A jubarte brasileira foi fotografada em Abrolhos em 2003 e reapareceu em Hervey Bay, na Austrália, em setembro de 2025. Já outra baleia, registrada na mesma região australiana em 2007 e 2013, foi encontrada no litoral de Ilhabela, em São Paulo, em 2019. Segundo os pesquisadores, a menor distância possível percorrida pelas baleias seria de 15,1 mil quilômetros no caso da brasileira e de 14,2 mil quilômetros para a australiana, estabelecendo um novo recorde conhecido para a espécie.
De acordo com o médico veterinário e coordenador de pesquisa do Projeto Baleia Jubarte, Milton Marcondes, a descoberta ajuda a entender melhor a recuperação das populações da espécie após décadas de caça intensa no século XX. “A gente já havia registrado movimentações de baleias do Brasil com o Equador e com a África do Sul, que são populações de jubartes vizinhas, mas nunca um deslocamento tão grande. Esse fluxo de indivíduos entre diferentes populações ainda é relativamente raro, mas pode se tornar mais frequente com o crescimento das populações de jubarte, que estão se recuperando da intensa caça que sofreram no século XX“, revela.
Marcondes explica que esse intercâmbio pode favorecer a diversidade genética das populações mais reduzidas e contribuir para sua recuperação a longo prazo. Atualmente, existem sete populações de baleias-jubarte no Hemisfério Sul. A brasileira já teve contato com pelo menos outras quatro, incluindo agora a da costa leste australiana.
As descobertas foram possíveis graças ao Happywhale, plataforma que utiliza inteligência artificial para comparar fotos de baleias do mundo inteiro. O sistema funciona como uma espécie de reconhecimento facial: analisa o padrão de cores e marcas da parte inferior da cauda, além do formato serrilhado das bordas, características únicas em cada animal. A tecnologia reúne imagens fornecidas por cientistas e também por cidadãos comuns, ampliando o monitoramento global das jubartes.
Os pesquisadores afirmam que a circulação entre populações diferentes também pode provocar mudanças culturais entre as jubartes. Cada grupo possui um canto específico, usado pelos machos para atrair fêmeas e sinalizar presença para outros machos. Esses cantos mudam gradualmente ao longo do tempo, mas algumas alterações bruscas, chamadas de “revoluções culturais”, podem ocorrer quando baleias de outras populações introduzem novos padrões sonoros.
Além dos impactos positivos, os cientistas alertam para possíveis riscos sanitários. Nas jubartes brasileiras já foi detectado o morbilivírus, agente que pode levar os animais à morte. “Existe o risco de que, na movimentação de baleias entre diferentes populações, algumas doenças possam ser carreadas de uma população para outra. Entender como se dá e com que frequência ocorrem essas migrações pode nos ajudar a compreender os riscos para a conservação das jubartes, tanto no Brasil como na Austrália” complementa Marcondes.