O risco de perda de obras de arte instaladas no antigo Centro de Convenções da Bahia voltou ao debate público em Salvador. Durante sessão na Câmara Municipal de Salvador nesta quarta-feira (8), o vereador André Fraga (PV) chamou atenção para a necessidade de preservar o acervo artístico presente no imóvel, que está em processo de venda pelo Governo do Estado. Segundo ele, a discussão sobre o destino dessas obras precisa ocorrer antes de qualquer intervenção estrutural.
Inaugurado em 1979, durante o governo de Roberto Santos, o equipamento foi concebido como um marco da integração entre arte e arquitetura. O projeto reuniu obras selecionadas por concurso público nacional, coordenado pelo Museu de Arte Moderna da Bahia e pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, dentro de uma política de inserção da produção artística em espaços públicos.
Entre os destaques está o conjunto escultórico em madeira criado por Celso Cunha Neto, incorporado ao patrimônio público em 1978. A obra é formada por 15 módulos de cedro distribuídos em três painéis de cerca de 5 metros por 3 metros, compondo uma instalação de aproximadamente 15 metros de extensão no foyer do Teatro Iemanjá. O complexo também abriga intervenções de Bel Borba (murais na fachada da foto principal), um painel da ceramista Dulce Cardoso e obras de artistas como Juarez Paraíso e Lício Peixoto.
Parte desse acervo é considerada patrimônio integrado, ou seja, concebido como elemento da própria arquitetura, o que exige procedimentos técnicos específicos para remoção e preservação. Materiais como a madeira de cedro, por exemplo, demandam cuidados especializados para evitar danos irreversíveis.

Mural instalado no foyer do Teatro Iemanjá é de Celso Cunha Neto | Foto: Reprodução/ArtMajeur
“É fundamental que haja clareza sobre o inventário completo dessas obras, bem como informações técnicas sobre seu estado de conservação e sobre os procedimentos previstos para sua retirada ou preservação”, afirmou Fraga. O vereador destacou que, sem planejamento, há risco concreto de perda do patrimônio cultural, agravado pelo histórico de abandono do espaço, exposto a infiltrações, umidade e pragas.
A preocupação também é compartilhada por entidades do setor cultural. A Associação Baiana de Artistas Plásticos e Visuais já cobrou medidas como inventário imediato, desmonte técnico supervisionado e destinação adequada das obras.
Em ruínas desde a interdição em 2015 e o desabamento parcial em 2016, o antigo equipamento, no bairro do Stiep, sofre com oxidação estrutural, furtos e incêndios. O terreno, com cerca de 153 mil m² e avaliado em aproximadamente R$ 300 milhões, deve ir a leilão ainda no primeiro semestre deste ano, após impasses judiciais envolvendo a Bahiatursa. Para substituir o espaço, a Prefeitura inaugurou em 2020 o Centro de Convenções Salvador, na Boca do Rio, que passou a concentrar os grandes eventos da capital.
Para Fraga, garantir a preservação das obras não é apenas uma medida técnica, mas um dever legal. Ele defende que qualquer processo de venda ou intervenção seja precedido de transparência, planejamento e cumprimento da legislação, assegurando a proteção integral de um acervo que integra a história cultural da Bahia.