Depois de rodar festivais internacionais, como o Festival de Cannes, “A Cronologia da Água (The Chronology of Water)” chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (2) cercado de expectativa. Não só pelo tema, mas por marcar a estreia de Kristen Stewart como diretora de longa, um passo coerente com a trajetória da atriz, que há anos vem se afastando de papéis mais comerciais, como o de Bella, da saga “Crepúsculo”, em busca de projetos mais crus e autorais.
Baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, o filme acompanha uma mulher tentando reconstruir a própria vida depois de crescer em um ambiente familiar abusivo. Essa tentativa passa por vários caminhos: a natação competitiva, os excessos da juventude, o sexo, as drogas, a raiva, até chegar à escrita, como uma forma de organizar o caos. Mas nada disso resolve de imediato. A marca do trauma continua ali, atravessando tudo.
Interpretada por Imogen Poots, Lidia é alguém que parece sempre em movimento, mas nunca totalmente presente. Ela se lança no mundo como nadadora, depois como universitária entregue a excessos, mas no fundo está vestindo uma máscara. Poots sustenta essa contradição com força, com um brilho natural que não suaviza a dor da personagem. Ao contrário, ela usa esse carisma para tornar tudo ainda mais intenso.

Kristen Stewart estreia como diretora de longa-metragem
A estrutura do filme acompanha essa fragmentação. Não há uma narrativa linear. São pedaços, memórias, sensações. O abuso está no centro de tudo, mas aparece quase como um fantasma, algo que molda a personagem sem precisar estar sempre explícito. Quando uma criança passa por esse tipo de violência, a identidade pode se romper, se dividir. E o filme traduz isso em sua forma, em capítulos, cortes bruscos, imagens que parecem mais sentir do que explicar.
Visualmente, é um filme que não pede licença. Filmado em 16mm (escolha estética que cai perfeitamente), cheio de closes e imagens simbólicas, ele usa a água como fio condutor, seja como abrigo, fuga e até espelho. É a água que sustenta Lidia, que permite escapar, que traduz essa fluidez interna criada como resposta a uma dor difícil de nomear. Não por acaso, os capítulos seguem essa lógica sensorial, com títulos ligados a esse universo.

Imogem Poots é Lidia Yuknavitch no filme
Há também momentos de respiro, como quando Lidia chega à universidade e encontra o escritor Ken Kesey, vivido por Jim Belushi. É ele quem a provoca a olhar para a própria história de outra forma, transformando experiência em linguagem. É quando o filme se aproxima mais claramente da ideia de escrita como sobrevivência.
A recepção crítica reflete bem o que o filme propõe, já que não é consenso. Há quem veja ali um trabalho íntimo, corajoso e emocionalmente forte. Outros apontam excesso de estilo, de fragmentação e de duração. Em alguns momentos, pode parecer mais interessado na própria linguagem do que em conduzir o espectador e isso pode afastar quem busca uma história mais direta e ironicamente cronológica.
Mas talvez essa seja justamente a proposta. “A Cronologia da Água” não quer ser confortável. É um filme visual, sem pudores, cru, que pode incomodar, especialmente públicos mais conservadores, que buscam nas telonas histórias mais comerciais. Funciona quase como uma descarga de dor e indignação autobiográfica, uma tentativa de reorganizar a própria vida a partir dos restos.
Em Cannes, no mesmo ano do sucesso de “O Agente Secreto”, o longa já indicava esse caminho. Foi exibido em mostra paralela e recebeu duas indicações importantes, na Un Certain Regard, voltada a filmes com linguagem mais autoral, e a Caméra d’Or, que reconhece o melhor filme de estreia. Não levou prêmio, mas saiu de lá com a sensação de que Kristen Stewart tem uma voz própria atrás das câmeras.
No fim, o filme parece ecoar a própria ideia presente nas memórias de Yuknavitch, de que a cronologia pode nos convencer de que estamos indo a algum lugar real. Aqui, esse caminho é torto, fragmentado, às vezes difícil, mas ainda assim, profundamente humano.
Onde assistir:
Salvador (BA)
Circuito Saladearte e Cine Glauber Rocha
Estreia: 2 de abril de 2026