Estreia de Kristen Stewart como diretora, “A Cronologia da Água” chega ao Brasil com proposta ousada

Estreia de Kristen Stewart como diretora, “A Cronologia da Água” chega ao Brasil com proposta ousada

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Divulgação/Filmes do Estação

Publicado em 01/04/2026 às 11:44 / Leia em 4 minutos

Depois de rodar festivais internacionais, como o Festival de Cannes, “A Cronologia da Água (The Chronology of Water)” chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (2) cercado de expectativa. Não só pelo tema, mas por marcar a estreia de Kristen Stewart como diretora de longa, um passo coerente com a trajetória da atriz, que há anos vem se afastando de papéis mais comerciais, como o de Bella, da saga “Crepúsculo”, em busca de projetos mais crus e autorais.

Baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, o filme acompanha uma mulher tentando reconstruir a própria vida depois de crescer em um ambiente familiar abusivo. Essa tentativa passa por vários caminhos: a natação competitiva, os excessos da juventude, o sexo, as drogas, a raiva, até chegar à escrita, como uma forma de organizar o caos. Mas nada disso resolve de imediato. A marca do trauma continua ali, atravessando tudo.

Interpretada por Imogen Poots, Lidia é alguém que parece sempre em movimento, mas nunca totalmente presente. Ela se lança no mundo como nadadora, depois como universitária entregue a excessos, mas no fundo está vestindo uma máscara. Poots sustenta essa contradição com força, com um brilho natural que não suaviza a dor da personagem. Ao contrário, ela usa esse carisma para tornar tudo ainda mais intenso.

Kristen Stewart estreia como diretora de longa-metragem

A estrutura do filme acompanha essa fragmentação. Não há uma narrativa linear. São pedaços, memórias, sensações. O abuso está no centro de tudo, mas aparece quase como um fantasma, algo que molda a personagem sem precisar estar sempre explícito. Quando uma criança passa por esse tipo de violência, a identidade pode se romper, se dividir. E o filme traduz isso em sua forma, em capítulos, cortes bruscos, imagens que parecem mais sentir do que explicar.

Visualmente, é um filme que não pede licença. Filmado em 16mm (escolha estética que cai perfeitamente), cheio de closes e imagens simbólicas, ele usa a água como fio condutor, seja como abrigo, fuga e até espelho. É a água que sustenta Lidia, que permite escapar, que traduz essa fluidez interna criada como resposta a uma dor difícil de nomear. Não por acaso, os capítulos seguem essa lógica sensorial, com títulos ligados a esse universo.

Imogem Poots é Lidia Yuknavitch no filme

Há também momentos de respiro, como quando Lidia chega à universidade e encontra o escritor Ken Kesey, vivido por Jim Belushi. É ele quem a provoca a olhar para a própria história de outra forma, transformando experiência em linguagem. É quando o filme se aproxima mais claramente da ideia de escrita como sobrevivência.

A recepção crítica reflete bem o que o filme propõe, já que não é consenso. Há quem veja ali um trabalho íntimo, corajoso e emocionalmente forte. Outros apontam excesso de estilo, de fragmentação e de duração. Em alguns momentos, pode parecer mais interessado na própria linguagem do que em conduzir o espectador e isso pode afastar quem busca uma história mais direta e ironicamente cronológica.

Mas talvez essa seja justamente a proposta. “A Cronologia da Água” não quer ser confortável. É um filme visual, sem pudores, cru, que pode incomodar, especialmente públicos mais conservadores, que buscam nas telonas histórias mais comerciais. Funciona quase como uma descarga de dor e indignação autobiográfica, uma tentativa de reorganizar a própria vida a partir dos restos.

Em Cannes, no mesmo ano do sucesso de “O Agente Secreto”, o longa já indicava esse caminho. Foi exibido em mostra paralela e recebeu duas indicações importantes, na Un Certain Regard, voltada a filmes com linguagem mais autoral, e a Caméra d’Or, que reconhece o melhor filme de estreia. Não levou prêmio, mas saiu de lá com a sensação de que Kristen Stewart tem uma voz própria atrás das câmeras.

No fim, o filme parece ecoar a própria ideia presente nas memórias de Yuknavitch, de que a cronologia pode nos convencer de que estamos indo a algum lugar real. Aqui, esse caminho é torto, fragmentado, às vezes difícil, mas ainda assim, profundamente humano.

Onde assistir:
Salvador (BA)
Circuito Saladearte e Cine Glauber Rocha
Estreia: 2 de abril de 2026

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