Mesmo com a polarização já consolidada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) na corrida pelo Palácio do Planalto, especialistas e estrategistas políticos ainda enxergam espaço para uma candidatura alternativa. É nesse cenário que ganha força a análise do marqueteiro baiano João Santana, figura conhecida nos bastidores das campanhas presidenciais no Brasil.
Natural de Tucano, Santana construiu uma trajetória de destaque na política nacional como responsável por campanhas vitoriosas do próprio Lula, em 2006, e da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Com forte influência na comunicação eleitoral, ele se consolidou como um dos principais estrategistas do país.
Agora, ao analisar o cenário atual, Santana afirma que há uma “avenida enorme” para o surgimento de um candidato de centro competitivo. Para ele, essa candidatura precisaria ir além da disputa emocional que marca o embate entre os polos políticos. O caminho, segundo o marqueteiro, em entrevista à Veja, passa por uma agenda baseada na defesa da democracia, na reorganização de programas sociais e em um plano de desenvolvimento que leve em conta novas tecnologias e transformações nas relações de trabalho.
Com esse conjunto de propostas, ele acredita ser possível, nas palavras dele, atacar as “falhas geológicas” de Lula e as “inconsistências “ de Flávio Bolsonaro. “Crescerá o candidato de centro que esqueça a técnica emocional de bater nos dois lados e se concentre num discurso de conciliação nacional. O candidato precisa traduzir isso em paz e progresso. Traduzir isso em mais segurança, mais saúde, novo empreendedorismo e principalmente mais esperança para a grande massa de informais e deserdados”, diz.
A leitura de Santana dialoga com dados apresentados por Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, que indicam um eleitorado menos ideológico do que parece. Segundo ele, 26% dos eleitores não votaram em Lula ou em Jair Bolsonaro na última eleição, ou votaram e se arrependeram, formando um grupo descrito como “desiludidos ou desmotivados”. Outros 27% escolheram o petista, mas não se identificam como de esquerda, enquanto 18% votaram no ex-presidente sem se considerar de direita.
Nesse cenário, o chamado núcleo duro da polarização seria minoritário, com 11% de esquerdistas convictos e 18% de direitistas. “Os extremos existem, mas são minoria e, no entanto, dominam o debate, pautam a cobertura, alimentam o algoritmo. É efeito de megafone, não de espelho. O Brasil que grita não é o Brasil que vota”, escreveu Meirelles em artigo publicado no jornal O Globo.
Apesar do diagnóstico que aponta uma brecha eleitoral relevante, o tempo político pode ser um obstáculo. A desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), de disputar a Presidência é vista como um indicativo de que a chamada terceira via enfrenta dificuldades para se viabilizar. Isso sugere que, embora exista espaço teórico, a “avenida enorme” mencionada por João Santana, as chances de uma reviravolta no quadro eleitoral seguem consideradas remotas.