Salvador 477 anos: conheça terreiro que abriga “spa espiritual” e atrai turistas do mundo todo ao Cabula

Salvador 477 anos: conheça terreiro que abriga “spa espiritual” e atrai turistas do mundo todo ao Cabula

Redação Alô Alô Bahia

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Publicado em 28/03/2026 às 13:10 / Leia em 6 minutos

No embalo do aniversário de Salvador, celebrado neste domingo (29), uma visita ao bairro do Cabula revela uma dessas histórias que só a cidade do axé sabe contar. Entre folhas sagradas, acolhimento e muita espiritualidade, o Ylê Yá Yalodeíde, comandado por Mãe Angélica de Oxum, reúne tradição e inovação ao abrir suas portas para uma experiência que tem despertado curiosidade e emoção em baianos e turistas.

Ialorixá há quase três décadas, Mãe Angélica construiu no terreiro de tradição ketu um espaço onde o cuidado com o corpo e o espírito caminham juntos. Receber visitantes para rituais específicos, como o jogo de búzios ou o banho de folhas, algo comum em muitos terreiros, ganhou ali uma nova leitura. Pelas mãos dela, o banho tradicional foi ressignificado e passou a ser chamado de “Banho de Axé”, uma experiência que combina ervas como alecrim, manjericão e oripepê com acolhimento, escuta e espiritualidade.

A ideia, no entanto, não surgiu de um dia para o outro. Técnica de enfermagem durante boa parte da vida e formada em turismo após a aposentadoria, Mãe Angélica percebeu, ainda nos tempos de estágio em hotéis da capital baiana, que muitos visitantes tinham interesse em conhecer o candomblé, mas esbarravam no preconceito ou na dificuldade de acesso. A virada de chave aconteceu em 2014.

Mãe Angélica construiu um espaço onde o cuidado com o corpo e o espírito caminham juntos

“Durante a Copa do Mundo, tive uma experiência marcante ao fazer o receptivo da torcida americana que veio para os jogos na Arena Fonte Nova. A pedido do pessoal do consulado de Recife, eu precisei criar uma vivência, algo que representasse a nossa cultura de forma cuidadosa”, lembra, em conversa com o Alô Alô Bahia. Foi ali que ela criou uma vivência adaptada, respeitando os limites do sagrado, com reza e banho de folhas. Nascia o embrião do que hoje se transformou em uma experiência estruturada.

Eu sentia que muitos turistas iam embora da Bahia com a sensação de que faltava algo mais profundo, faltava levar o Axé. Lembro com carinho do primeiro turista que recebi, Cláudio, um engenheiro de São Paulo. Ele pediu informação de um terreiro na Feira de São Joaquim e um barraqueiro me indicou. Foi aí que entendi que existia uma oportunidade de criar uma experiência estruturada, organizada e acessível sem perder a essência do sagrado. Algo que acolhesse, mas também respeitasse profundamente a nossa tradição”, reflete.

O espaço evoluiu e hoje funciona quase como um refúgio sensorial. Antes de qualquer ritual, quem chega é convidado a desacelerar: água, café e tapioca ajudam a “esfriar o sangue”, como dizem por lá, enquanto a energia do lado de fora vai ficando para trás. Lá são oferecidos serviços como massagem, escalda-pés e outras práticas de autocuidado integradas ao ambiente do terreiro.

Apesar da proposta inovadora, Mãe Angélica faz questão de reforçar que há limites claros entre o que pode ser compartilhado e o que permanece restrito à religião. Os espaços mais íntimos e os fundamentos do candomblé seguem preservados, enquanto a área destinada aos visitantes foi pensada exclusivamente para essa experiência de acolhimento. “Assim, conseguimos acolher com respeito, sem expor o que é mais íntimo da nossa tradição. Os quartos de santo e os fundamentos permanecem preservados, como devem ser”, reforça.

O “Banho de Axé” é uma experiência organizada e acessível sem perder a essência do sagrado

A reação mais comum entre os visitantes, segundo ela, é um relaxamento profundo, muitas vezes acompanhado de sono. Há também quem se emocione, chore e saia do terreiro visivelmente mais leve. “Cada pessoa reage de uma forma, mas a sensação mais relatada é a leveza. É como se algo fosse limpo por dentro e por fora. Como se a alma respirasse melhor”, relata.

A iniciativa também tem cumprido um papel importante no combate ao preconceito religioso. Pessoas de diferentes crenças, classes sociais e nacionalidades passam pelo espaço e encontram um ambiente de respeito e acolhimento. “Muitas pessoas chegam com medo, com dúvidas, e saem encantadas. Elas se permitem sentir, se abrem, compartilham suas dores e buscam orientação. É muito bonito ver esse processo acontecendo. Ver preconceitos sendo desconstruídos na prática, através do afeto e da vivência”, celebra.

Nos últimos meses, o projeto ganhou ainda mais visibilidade nas redes sociais, impulsionado por criadores de conteúdo de viagem e estilo de vida, o que fez o número de visitantes crescer. Ainda assim, o espaço funciona mais como suporte à manutenção do terreiro, que também abriga ações sociais, como atendimentos de saúde e cursos, do que como um negócio lucrativo, já que os custos mensais são elevados.

Com planos de expandir a experiência para uma área mais central da cidade, mantendo o terreiro no Cabula, Mãe Angélica segue equilibrando tradição e inovação com firmeza. As críticas existem, especialmente de setores mais conservadores, mas ela sustenta que tudo é feito dentro dos fundamentos da religião.

“O Banho de Axé foi criado justamente para preservar o sagrado. Os visitantes são recebidos em um espaço específico dentro do terreiro, pensado exclusivamente para essa experiência de SPA espiritual. Com permissão espiritual (da sua mãe Oxum e do caboclo Boiadeiro), senti no coração que era possível inovar sem perder a essência da nossa tradição. Unir o saber ancestral das folhas com o cuidado do toque, criando uma experiência profunda, onde o corpo descansa e o espírito é acolhido”, diz.

O especial Salvador 477 anos do Alô Alô Bahia é oferecido pela Moura Dubeux e Guanabara e conta com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.

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