Nas ébrias noites do Rio Vermelho, quando até bater um papo com as estátuas de Jorge e Zélia parece uma ideia razoável, o cabra olha em volta e percebe que, envolta no emaranhado de bares, há uma pequena igreja branca, com arquitetura colonial e uma imponente porta que sempre permanece fechada, impedindo qualquer bebum arrependido de rumar ao altar em busca de ajuda para os problemas que nem a cachaça foi capaz de solucionar.
E assim tem sido há mais de 10 anos. Quando iniciaram-se as obras de requalificação do Rio Vermelho em 2014, a centenária Igreja de Santana — atualmente rebaixada, nos termos oficiais, à condição de capela — fechou.
“Só que quando tentamos reabri-la, verificou-se que ela estava com a estrutura comprometida. Então a engenharia recomendou que não fizéssemos o uso dela por ser perigoso”, explica o padre Ângelo Magno, responsável pela paróquia do Rio Vermelho, em entrevista ao Alô Alô Bahia.
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Dentro da igreja, cenário é de abandono – Foto: Reprodução
Desde então, muitos projetos e campanhas foram iniciados na tentativa de reabrir o histórico templo religioso. Em meio à mobilização do clero, fiéis, comunidade e até entes públicos, um problema surgiu — ou melhor: um milhão e meio deles.
Após vistoria, especialistas avaliaram que o custo de uma reforma que permitisse uma completa utilização do espaço sairia por, pelo menos, R$ 1,5 milhão, de acordo com apuração do Alô Alô Bahia.
Para completar, a reforma teria um asterisco. A possibilidade de o espaço reabrir como área de missas está praticamente descartada. O motivo? O mesmo que faz do Rio Vermelho a meca da noite soteropolitana: os infindáveis bares e boates que circulam o templo.
“É um ambiente inconveniente para atividade religiosa. O bairro cresceu muito e tornou-se um ambiente profano quase que 24 horas por dia. Uma vez, os bispos vieram visitar o local e, às nove da manhã, já tinha música alta, cheiro de álcool, muita gente bebendo. Com isso, qualquer atividade religiosa seria prejudicada, além de criar uma dificuldade de relacionamento com as pessoas em volta. Ou seja, ia incomodar ambos os lados”, avalia o pároco.

Igreja atualmente disputa espaço com as cadeiras dos botecos da região – Foto: Reprodução / Redes Sociais
Com isso, o objetivo é reabrir a capela como um espaço menos celebrativo, mas ainda mais cristão, atendendo a comunidade com um centro social e cultural.
“Estamos com um projeto muito bonito, inclusive dando apoio a pessoas em situação de rua. Além disso, planejamos instalar ali um centro de apoio ao turista que frequenta a região, uma das mais visitadas de Salvador“, lamenta.
Igreja fundamental para Salvador
Comparada às irmãs do Centro Histórico e Cidade Baixa, a Igreja de Santana é menor, mais discreta, mas nem por isso menos importante. Com quase 200 anos, foi a partir dela que toda a região se desenvolveu.
Quando construída, o Rio Vermelho era uma mistura de colônia de pescadores com bairro de veraneio. “Daí surge a curiosidade de que a festa oficial da igreja acontece no meio do ano. Porém, a região estava vazia neste período. Precisaram criar uma nova versão ‘oficiosa’ da celebração em fevereiro para que as pessoas pudessem participar”, narra o padre.
Além disso, no século XIX, apenas ela e as companheiras da Vitória, Brotas e Itapuã detinham o cobiçado título de paróquia. Ou seja: toda igreja que depois surgiu da Pituba a Ondina, passando pela região da Vasco da Gama e adjacências, pode ser considerada ‘filha’ de Santana.
Inclusive a própria igreja, maior e mais robusta, construída há algumas décadas a poucos metros da original, onde hoje acontecem as missas e atividades religiosas, enquanto a anciã permanece inabitada.

Nova Igreja de Santana, no Rio Vermelho – Foto: Nara Gentil / CORREIO
O especial Salvador 477 anos do Alô Alô Bahia é oferecido pela Moura Dubeux e Guanabara e conta com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador.