Um acidente vascular cerebral ou um traumatismo craniano pode mudar a fala, os movimentos e até a memória. Em casos raros, no entanto, a transformação pode atingir algo ainda mais cotidiano: o paladar. Foi assim que a medicina descreveu a chamada síndrome de Gourmand, uma condição neurológica que provoca uma obsessão súbita por alta gastronomia.
O nome foi proposto em 1997 pelos neurologistas Marianne Regard e Theodor Landis para definir pacientes que, após lesões cerebrais, geralmente no hemisfério direito, passaram a desenvolver um interesse intenso e compulsivo por comida sofisticada. Não se trata apenas de “gostar de comer bem”. A mudança é profunda: a pessoa passa a direcionar tempo, dinheiro e conversas à busca pela refeição perfeita, com preferência por pratos elaborados, ingredientes raros e vinhos premiados.
A síndrome costuma estar associada a alterações em áreas do cérebro ligadas ao sistema de recompensa e ao controle de impulsos. A hipótese dos pesquisadores é que a lesão cause um desequilíbrio no sistema límbico, responsável pelas emoções e pelo prazer. Com isso, o cérebro passa a associar picos de dopamina apenas a experiências sensoriais complexas, como combinações refinadas de sabor, textura e apresentação. Diferentemente de outros transtornos alimentares, aqui o foco não é quantidade nem compulsão por ultraprocessados, mas a qualidade extrema.
O caso mais emblemático descrito na literatura médica é o de um jornalista político suíço que, após sofrer um AVC, abandonou a carreira para se tornar crítico gastronômico. Ele passou a frequentar apenas restaurantes renomados e a tratar cada refeição como uma experiência artística, analisando minúcias de preparo e apresentação com devoção quase absoluta.
À primeira vista, pode soar como uma “doença de luxo”, especialmente em tempos em que a cultura gastronômica ganha status de espetáculo, algo explorado de forma satírica e sombria no filme “O Menu”, que expõe a obsessão contemporânea por experiências culinárias exclusivas. Mas, fora da ficção, a síndrome de Gourmand pode trazer impactos reais, como problemas financeiros e conflitos sociais, caso o comportamento se torne compulsivo.
Não há uma cura específica, até porque muitos pacientes não encaram a condição como um problema, mas como um novo estilo de vida apaixonante. Quando há prejuízos à saúde ou às finanças, o tratamento envolve acompanhamento médico e terapia comportamental.
Mais do que uma curiosidade clínica, a síndrome de Gourmand revela o quanto a identidade humana é delicada. Uma pequena alteração física no cérebro pode transformar radicalmente preferências e prioridades, inclusive algo tão básico quanto o que escolhemos colocar no prato.