O médico e professor Raymundo Paraná fez uma reflexão crítica sobre a atuação de médicos influenciadores nas redes sociais, questionando a qualidade, a ética e o compromisso científico de parte do conteúdo produzido por profissionais da área que acumulam milhões de seguidores. Sem demonstrar interesse em popularidade digital, Paraná afirmou que não faz “questão nenhuma de ter um número grande de seguidores” e disse observar uma contradição frequente entre alcance e qualidade da informação divulgada.
Segundo o membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia, da Associação Americana para o Estudo do Fígado (AASLD), muitos conteúdos de grande audiência carecem de rigor científico e honestidade. “Boa parte do que eu vejo na rede social de indivíduos que têm milhões de seguidores contrasta com a qualidade da informação, a honestidade da informação que esses indivíduos passam”, afirmou.
O hepatologista foi ainda mais duro ao questionar a postura de médicos que utilizam as redes como ferramenta de autopromoção. “Médico fazendo propaganda de si mesmo é um absurdo. Médico usando pacientes para fazer propaganda de si mesmo é um absurdo”, disse. Para ele, há um interesse evidente em captação de pacientes, o que classificou como uma “deselegância absurda” para a profissão.
Paraná, que é professor de Medicina na Universidade Federal da Bahia (Ufba), também criticou profissionais que, segundo ele, falam “besteiras totalmente descontextualizadas da ciência”, mesmo sem currículo robusto ou reconhecimento acadêmico. Ele destacou que a ausência de registro de qualidade e de produção científica consistente já indicaria que esses indivíduos “não trazem nada de importante, interessante e nada seguro para a sociedade”.
Na avaliação do médico, a falta de regulação nas plataformas digitais contribui para esse cenário. “Infelizmente estão aí, não há regulação, as portas estão abertas, as pessoas falam o que querem”, afirmou. Em contraste, ele defendeu que o canal que mantém nas redes tem como objetivo oferecer informação “honesta, científica”, sem a pretensão de agradar a todos. “Quem quiser ouvi-las pode ouvi-las, quem quiser usufruir delas pode usufruir, quem não quiser não há o menor problema”, disse.
Outro ponto abordado por Raymundo Paraná foi a tentativa de politização de espaços dedicados à saúde. Ele deixou claro que não aceita provocações ou debates políticos em seu canal. “Isso é um canal médico. As questões políticas de cada um são de cada um, assim como as questões religiosas, as questões de sexualidade”, afirmou. Segundo ele, comentários desse tipo serão bloqueados, independentemente do espectro político. “Não terão respaldo, e eu os bloquearei, de qualquer que seja o lado que ela venha.”
O médico também alertou para os riscos da rotulagem e da polarização. Para ele, classificar pessoas em grupos facilita a formação de “rebanhos” e reduz o pensamento crítico. “Não se deixe rotular. Nem de um lado, nem de outro lado”, aconselhou. Paraná defendeu o uso do “juízo crítico” e da “inteligência” como diferenciais humanos fundamentais.
Ao final, reforçou que não faz questão de manter em seus espaços virtuais pessoas que promovam esse tipo de contaminação do debate. “Não faço questão de ter essas pessoas acompanhando, de forma alguma. Contaminam”, concluiu.
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