Ícone do futebol feminino brasileiro, a baiana Sissi relembrou sua trajetória marcada por desafios, preconceito e persistência em depoimento, nesta sexta-feira (29), ao jornal O Globo. No Dia da Visibilidade Lésbica, a ex-camisa 10 da seleção falou sobre carreira, identidade, maternidade e o legado que busca deixar para as novas gerações.
Nascida em Esplanada, na Bahia, ela lembra que não tinha muita perspectiva, mas tinha o sonho de ser jogadora de futebol. “Minha mãe falava que eu tinha que ter outra opção, mas eu não queria isso de jeito nenhum. Se tem uma palavra que me define, é persistência. Minha trajetória não foi fácil, mas nunca desisti”, conta.
Sem estrutura, Sissi recebeu sua primeira convocação para a seleção em 1988. “Chegou uma carta. Fiquei desconfiada. A gente foi disputar o primeiro Mundial Experimental, na China, na cara e na coragem, e com uniformes masculinos. Foi minha primeira vez com a camisa da seleção, um sonho realizado. A CBF pagou as despesas, mas a gente não recebeu nada. Eu tinha 21 anos, ganhava uma mesada da minha família e recebia jogando futebol de salão”, lembra.
Pouco antes da primeira Copa do Mundo, em 1991, a baiana se lesionou e relembra da fase como um dos momentos mais difíceis de sua carreira. “Foi o momento mais triste, mas foquei na recuperação. Minha primeira participação ficou para 1995, na Suécia. Eu já era mais experiente e pude desfrutar, mas muita gente não conseguiu sobreviver jogando futebol no Brasil. Nessa época já lutávamos por respeito e reconhecimento”, diz.
O Mundial de 1999, segundo ela, foi um marco sua carreira, inclusive fora do campo, por conta do visual, de cabeça raspada. “Raspar a cabeça foi uma maneira de me expressar e que foi mal compreendida. As pessoas achavam que eu queria chocar, criar controvérsia… Esse nunca foi meu intuito. Foi uma promessa para uma criança”, revela.

Sissi, em visita à seleção brasileira; pazes com a CBF | Foto: Rafael Ribeiro/CBF
“Nunca me preocupei com meu jeito de me vestir e isso incomodou muita gente dentro da CBF. Eles me tiravam das entrevistas, falavam que eu não era bonita o suficiente. Eu não me encaixava naquele padrão e não deixei que ninguém me colocasse nele”, defende. As represálias por essa postura, no entanto, foram duras. “Sofri, perdi muita coisa. Procurei me blindar, mas me afetou emocionalmente. Quando você bate de frente com pessoas que têm poder, fica muito complicado. Talvez por isso eu não tenha sido convocada depois. Acharam que eu estava criando problemas. E quando você vira problema…”, pondera.
A sexualidade, claro, estava bem no meio de campo desse cenário de repressão. “Naquela época, você não podia falar ‘sou sapatão’ ou colocar uma foto com a namorada, era proibido. Nunca fui de negar, mas também não me expunha. Procurava preservar esse lado pessoal. O que as pessoas tinham que saber a meu respeito dizia respeito à jogadora profissional”, diz a ex-atleta, que mora atualmente nos Estados Unidos, onde diz ter encontrado respeito.
“Após os Jogos Olímpicos de 2000, vim jogar nos Estados Unidos. Sabia que teria mais oportunidades aqui, porque o futebol feminino havia evoluído muito. E estava certa: ninguém me julgou, fui respeitada. Hoje, trabalho em um clube no estado da Califórnia com garotas de 15 e 16 anos, como diretora técnica das categorias de base. Procuro passar que elas têm que ser autênticas e não podem deixar que as pessoas mudem seu jeito”, conta a baiana, hoje mãe por adoção.
“Sempre tive o sonho de ser mãe. Não sabia quando ou como seria. Eu e Jennifer, minha companheira na época, começamos a trabalhar como foster (adoção temporária). A assistente social falou de um menino que precisava de alguém com quem ficar por um período. Quando eu peguei Michael no colo, falei: ‘pronto’. As pessoas dizem que só se sabe o que é o amor verdadeiro quando se tem filhos, e é verdade”, revela a técnica, que se diz reconciliada com a seleção brasileira.
“Vivi um período de muita amargura, não tinha coisas boas para falar da CBF. Em abril deste ano, fiquei com receio de ir ao treino da seleção aqui nos EUA. Tive medo da rejeição, mas queria conhecer o técnico Arthur Elias e as meninas. E a experiência foi muito boa, me receberam de uma maneira legal. No jogo contra a seleção daqui, as minhas lágrimas foram uma maneira de, finalmente, colocar um ponto final e seguir a minha vida”, reflete.
Sissi, inclusive, espera poder atuar mais próximo da seleção. “Sempre deixei claro que gostaria de ajudar de alguma forma, sem forçar a barra. Com o Mundial no Brasil em 2027, seria maravilhoso participar. Se acontecer, tudo bem. Se não, vou continuar falando muito bem do futebol feminino do país”, conta a baiana, que diz não se arrepender de nada. “Corri riscos e apanhei, mas tento me lembrar apenas das coisas boas, viver cada segundo e terminar os dias sentindo que conquistei algo. Isso é o que importa”, finalizou, em depoimento à repórter Laís Malek.