Quase 9 em cada 10 informações sobre saúde nas redes sociais são falsas, aponta estudo

Quase 9 em cada 10 informações sobre saúde nas redes sociais são falsas, aponta estudo

Redação Alô Alô Bahia

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Luana Veiga

Reprodução

Publicado em 28/10/2026 às 11:00

Quase nove em cada dez alegações sobre saúde que circulam nas redes sociais e são analisadas por checadores de fatos são falsas. É o que aponta o relatório Raio-X da Desinformação em Saúde, produzido pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da agência de checagem Lupa, com apoio da Afya. O levantamento identificou que 87,3% das 764 alegações analisadas entre 2017 e 30 de junho de 2026 foram classificadas como falsas.

O estudo reúne conteúdos checados pela agência ao longo de quase uma década e revela a dimensão da circulação de informações enganosas sobre saúde no ambiente digital. De acordo com os pesquisadores, o volume equivale a mais de uma nova alegação falsa de grande alcance verificada por semana, em média.

Entre os assuntos que mais aparecem nas publicações estão a Covid-19, presente em 61% dos conteúdos analisados; tratamentos, curas e métodos de prevenção, com 34%; e alimentos, bebidas e nutrição, que representam 24%. Os percentuais não são excludentes, já que uma mesma publicação pode abordar mais de um tema.

Os números mostram que a desinformação não se limita a informações sobre doenças e vacinas. Recomendações alimentares, supostos métodos de prevenção e promessas de cura também fazem parte desse cenário, com potencial para influenciar decisões individuais e comprometer o acesso da população a informações confiáveis.

Falsas autoridades e promessas milagrosas

O relatório identificou quatro estratégias recorrentes na construção e disseminação de alegações falsas sobre saúde. A mais frequente é o uso de uma falsa autoridade médica ou científica, presente em 21,59% dos casos. Na sequência aparecem a exploração do medo e da linguagem alarmista, com 17,09%; a distorção de estudos e dados científicos, com 15,74%; e a promessa de soluções simples para problemas complexos, identificada em 12,59% das alegações.

Segundo os pesquisadores, a estratégia da falsa autoridade vai além da criação de especialistas inexistentes. Ela também inclui declarações verdadeiras retiradas de contexto, resultados científicos apresentados de maneira exagerada, limitações de pesquisas omitidas e frases que nunca foram ditas atribuídas a profissionais reais.

“Em vez de simplesmente rejeitar a ciência, esses conteúdos se apropriam de seus sinais de autoridade para conferir credibilidade a alegações falsas”, explica o relatório.

A prática pode tornar a desinformação mais convincente, especialmente quando uma publicação utiliza termos técnicos, cita estudos científicos ou apresenta alguém como médico ou pesquisador para sustentar uma afirmação sem evidências suficientes.

Medo se torna principal estratégia no período mais recente

Embora a falsa autoridade médica lidere o levantamento geral, a exploração do medo e da linguagem alarmista ganhou destaque no recorte mais recente, entre 2025 e junho de 2026. Nesse intervalo, a estratégia apareceu em 33,82% das alegações analisadas, tornando-se a mais frequente do período.

Segundo o documento, esse tipo de conteúdo transforma afirmações enganosas em supostos alertas urgentes e associa vacinas, tratamentos e até produtos de uso cotidiano a consequências graves, como infertilidade, câncer ou morte.

A linguagem alarmista pode estimular reações imediatas, dificultar a avaliação crítica das informações e levar usuários a compartilhar publicações antes de verificar sua origem. Em temas relacionados à saúde, esse mecanismo também pode aumentar a desconfiança em relação a tratamentos e recomendações respaldados por evidências científicas.

WhatsApp concentra a circulação de conteúdos checados

O levantamento também aponta mudanças nos formatos utilizados para disseminar informações falsas. Receitas caseiras e promessas de tratamentos milagrosos passaram a dividir espaço com anúncios pagos, vídeos manipulados por inteligência artificial e declarações falsas atribuídas a médicos.

Entre as plataformas analisadas, o WhatsApp foi a mais recorrente, aparecendo em 70,5% das checagens consideradas no estudo. O dado destaca a presença de conteúdos enganosos em ambientes de comunicação cotidiana, nos quais mensagens podem ser compartilhadas entre familiares, amigos e grupos de conhecidos.

A circulação em redes de confiança pode contribuir para que uma informação seja recebida como verdadeira, mesmo quando não apresenta fontes confiáveis. Por isso, a verificação da origem de uma mensagem e a consulta a instituições de saúde e fontes científicas reconhecidas são medidas importantes antes de compartilhar recomendações ou alertas.

Pandemia mudou a escala, mas não as estratégias

Para Maiquel Rosauro, pesquisador da Lupa responsável pelo estudo, a pandemia de Covid-19 ampliou a dimensão da desinformação em saúde, mas também evidenciou métodos de persuasão que já eram utilizados anteriormente.

“O que o estudo mostra, olhando para quase 10 anos de checagens, é que muitas das técnicas que explodiram naquele momento já existiam antes e continuam sendo usadas hoje. A mentira mudou de assunto, incorporou novas ferramentas, mas preservou mecanismos de persuasão muito parecidos”, afirma, em nota.

O relatório indica, assim, que a desinformação em saúde não é um fenômeno restrito a uma crise sanitária específica. Embora os assuntos e as ferramentas de disseminação mudem com o tempo, estratégias como o apelo à autoridade, a manipulação de dados e a exploração do medo continuam sendo utilizadas para dar aparência de credibilidade a informações falsas.

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