Salvador está entre os mercados nordestinos com maior potencial de crescimento na indústria de gestão de patrimônio, setor que vem ganhando força fora do eixo financeiro tradicional do Brasil. A região Nordeste ultrapassou o Sul e assumiu a segunda posição nacional em volume de recursos sob gestão, atrás apenas do Sudeste, alcançando R$ 60,5 bilhões no primeiro semestre de 2026. Os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), divulgados pelo Estadão, mostram que o montante cresceu 9,4% em relação ao fim de 2025.
A Bahia integra esse movimento de expansão, com Salvador entre as praças que concentram as expectativas mais otimistas de crescimento para as gestoras de investimentos. Na AVIN Investimentos, que administra quase R$ 19 bilhões, por exemplo, os escritórios de Salvador, Fortaleza (CE) e Teresina (PI) têm projeções de avanço entre 25% e 30% ao ano, acima da média de aproximadamente 20% estimada para as demais unidades da empresa.
O desempenho do Nordeste ganha ainda mais relevância quando observado o crescimento acumulado desde 2020. Nesse período, o volume de recursos sob gestão na região avançou 752,1%, a maior alta entre as cinco regiões brasileiras. O Norte aparece em seguida, com 516,7%, enquanto o Sul cresceu 164,3%, o Centro-Oeste, 119,2%, e o Sudeste, 115,7%.
Mesmo com a expansão, o Sudeste permanece na liderança nacional, com R$ 407,5 bilhões sob gestão. São Paulo concentra 73% desse total, evidenciando o espaço que ainda existe para o desenvolvimento da indústria financeira em outros mercados, como a Bahia.
Segundo Thiago Fujiwara, sócio e membro do conselho da AVIN, o avanço no Nordeste está relacionado à procura por atendimento especializado entre investidores e famílias de alta renda. “Havia uma demanda recorrente por um atendimento personalizado, porque os grandes bancos de varejo começaram a oferecer um relacionamento mais digitalizado e menos customizado ao cliente. O atendimento qualificado estava muito concentrado em São Paulo”, afirma o executivo, em entrevista ao Estadão.
No Ceará, principal mercado da gestora no Nordeste, os clientes quase triplicaram suas alocações no exterior, estratégia que antes não fazia parte de suas carteiras. “Os investidores do Nordeste são bem conservadores”, diz Fujiwara.
A busca por serviços especializados também é impulsionada por experiências negativas com assessoramento inadequado e investimentos incompatíveis com o perfil de risco dos clientes. Na Astor Partners, multifamily office com R$ 1,5 bilhão sob gestão e atendimento a famílias da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará e da Bahia, há casos de investidores que chegaram à empresa com ativos inadequados ao momento de vida ou exposição excessiva a produtos com alto risco de inadimplência.
Um dos desafios para o mercado nordestino, incluindo a Bahia, é ampliar a cultura de investimentos em produtos financeiros. De acordo com Ravi Macêdo, sócio da Astor, muitos investidores da região ainda priorizam ativos reais, como imóveis e participações em empresas, o que abre espaço para estratégias de diversificação. “Existe um trabalho gradual de começar a implementar uma visão mais de portfólio para equilibrar a equação de risco e retorno”, acrescenta.
Bruno Barreto, advogado especializado na área de investimentos, avalia que o Nordeste ainda tem um amplo campo para o desenvolvimento de negócios ligados ao setor financeiro. “Eu sempre digo que, de Salvador para cima, há um ‘oceano azul’ para atuação dos gestores. Há potenciais clientes que acessam pouco o mercado financeiro, seja por receio ou por desconhecimento”, diz.