Tom Cruise está acostumado a salvar o mundo, mas quase sempre correndo, pulando, dirigindo, escalando ou se colocando em alguma situação aparentemente impossível. Em “Digger”, porém, a lógica é outra, já que antes de tentar salvar a humanidade, seu personagem é justamente um dos responsáveis pelo desastre que ameaça destruí-la. Essa inversão é apenas o começo da estranheza proposta pelo diretor Alejandro González Iñárritu.
Estrelado por Cruise e dirigido pelo cineasta mexicano dos premiados “Birdman” e “O Regresso”, “Digger” chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (1º). O filme acompanha Digger Rockwell, um dos homens mais poderosos do planeta, que provoca uma catástrofe ambiental e, diante das consequências previstas, embarca em uma missão desesperada para provar que ainda pode ser o salvador da humanidade.

Cruise ao lado do excelente John Goodman
O filme é muito mais próximo de uma grande sátira política do que de um blockbuster tradicional. “Digger” fala de poder, dinheiro, ego, interesses econômicos, crise climática e da necessidade que certas figuras têm de se enxergar como protagonistas de qualquer acontecimento, inclusive daqueles que elas próprias ajudaram a provocar.
Neste cenário, o exagero entra como um dos principais elementos do filme. “Digger” é teatral, escrachado, desconfortável e deliberadamente estranho. Há momentos em que tudo parece grande demais, da histeria dos personagens e seus gestos, aos discursos, conflitos e à maneira como a história é contada. Essa teatralidade, no entanto, não me parece deslocada do roteiro, pelo contrário, faz parte da própria linguagem escolhida por Iñárritu para transformar uma discussão sobre poder e responsabilidade em uma espécie de farsa espetacular.
No final, a produção combina a comédia negra com a reflexão sobre a crise climática. Para alguns críticos, essa reflexão é superficial, mas, acredito que, justamente por ser uma sátira, o filme não precisa transformar cada questão ambiental em uma aula. A crítica está muitas vezes na própria piada, no absurdo da situação e na maneira como os poderosos reagem quando precisam lidar com as consequências de suas próprias decisões.
“Digger” confia no discernimento de quem está assistindo. A mensagem ambiental está ali, mas dividindo espaço com uma provocação maior sobre a forma como governos, empresários, mídia e indivíduos poderosos lidam com crises que eles mesmos ajudaram a produzir. Nesse sentido, o tom farsesco não enfraquece necessariamente a crítica política ou ambiental, mas é a própria crítica e, quanto mais absurdo Digger se torna em sua tentativa de parecer indispensável, mais evidente fica a ironia por trás do personagem.

Transformação física do ator chamou atenção
Onde o filme encontra sua força é onde também está o ponto que pode mais dividir o público. O excesso de “Digger”, sua estranheza e sua teatralidade podem incomodar quem espera de Iñárritu um drama mais convencional. Para mim, porém, é justamente isso que torna o filme interessante.
Tom Cruise entende perfeitamente essa proposta. Digger Rockwell está muito distante dos heróis de ação que dominaram boa parte de sua carreira até aqui. Cruise aparece fisicamente transformado, com próteses, cabelos grisalhos e um corpo diferente daquele que se tornou uma das imagens mais reconhecíveis do cinema comercial. Mais importante que a transformação visual, no entanto, é a transformação dramática.
O ator interpreta um homem vaidoso, egocêntrico, poderoso e completamente convencido de sua própria importância. É uma atuação que depende muito mais de expressão, ritmo, presença e disposição para o ridículo do que de acrobacias. O próprio Cruise descreveu Digger como um personagem diferente de tudo que havia interpretado antes.

É impossível ignorar o contexto do Oscar. Com 3 indicações por atuação em outros filmes, Cruise nunca venceu a estatueta competitiva e “Digger” chegou à temporada de premiações cercado pela expectativa de que finalmente poderia oferecer ao ator um papel capaz de colocá-lo na briga da categoria. A transformação física, a parceria com um diretor vencedor do Oscar e o afastamento radical de sua imagem tradicional ajudam a alimentar essa expectativa.
Também pesa a presença de um elenco bastante forte, com Sandra Hüller (indicada ao Oscar), Riz Ahmed (vencedor do Oscar), o excelente John Goodman, Jesse Plemons (com uma indicação) e Michael Stuhlbarg. A produção ainda reúne colaboradores importantes de Iñárritu, como o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, além de nomes premiados responsáveis pelo design de produção e pelos efeitos de maquiagem. O filme foi rodado integralmente em VistaVision, reforçando a intenção de transformar sua dimensão visual em parte fundamental da experiência cinematográfica.
Serviço:
Filme: Digger
Estreia no Brasil: 1º de outubro de 2026
Direção: Alejandro González Iñárritu
Duração: 129 minutos
Distribuição: Warner Bros. Pictures
⭐⭐⭐⭐1/2