A Polícia Federal detalhou uma série de repasses financeiros e ofertas de benefícios de alto padrão envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado.
Os dados integram o relatório da investigação que apura as atividades da instituição financeira.
O foco central das apurações é a relação comercial entre as empresas ligadas a Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane. Um dos contratos firmados estipulava o pagamento de 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório, valor que ultrapassava os R$ 3,6 milhões brutos com a incidência de impostos.
Entre fevereiro de 2024 e outubro de 2025, a PF rastreou quatro comprovantes de transferência para a banca da advogada, totalizando R$ 13,6 milhões pagos.
Mensagens de março de 2024 mostram Vorcaro cobrando prioridade na quitação, afirmando que aquele era “o pagamento mais importante” e que não admitia sequer um dia de atraso.
A investigação encontrou registros técnicos que ligam o nome do ministro ao acordo. A troca de arquivos com as minutas do contrato, ocorrida em janeiro de 2024, revela nos metadados que a última modificação no documento foi feita por um usuário registrado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
A polícia ressalta que esse tipo de rastro digital aponta de qual conta o arquivo foi editado, mas não comprova, de forma isolada, quem estava de fato operando o computador. O documento foi assinado dias depois por Vorcaro e um representante.
Aeronaves como forma de pagamento
Os investigadores identificaram as tratativas para um segundo contrato, desta vez com teto de R$ 50 milhões líquidos, a serem pagos também ao longo de três anos. A minuta permitia que o valor fosse quitado em dinheiro ou por meio da entrega de bens.
Em maio de 2025, um advogado enviou a Vorcaro uma proposta sugerindo pagar R$ 40 milhões desse montante repassando cotas de duas aeronaves: um jato Legacy 650 e um helicóptero Airbus EC 155 B1, vinculados a empresas do grupo.
Os R$ 10 milhões restantes cobririam as despesas de uso. Em um diálogo interceptado, o sócio de Vorcaro, Marcos da Mata, chega a perguntar a Viviane de Moraes se eles estavam gostando de utilizar as cotas. A advogada responde positivamente: “Sim, estamos gostando muito”.
Após a revelação do documento da PF, o escritório Barci de Moraes divulgou nota negando a assinatura desse segundo contrato e afirmando que não aceitou os termos do acordo, motivo pelo qual jamais teria recebido as aeronaves ou outros ativos mencionados.
Turismo e mordomias
Além dos honorários, o relatório da PF lista luxos custeados pelo banqueiro. O documento relata a organização de uma recepção no hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão (SP), agendada para dezembro de 2026.
Vorcaro exigiu de sua equipe uma “experiência completa” para “convidados ultra vips”, referindo-se a uma comitiva ligada a “Alex”. O pacote incluía chef de cozinha particular, passeios a cavalo e atendimento exclusivo para nove pessoas e quatro seguranças.
No exterior, o banco também bancou comodidades. A PF reuniu provas de que o Banco Master patrocinou o I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, em abril de 2024, cobrindo todas as despesas de viagem de autoridades.
Mensagens mostram Moraes convidando o também ministro Gilmar Mendes para o evento e participando ativamente da definição da lista de convidados.
Durante a estadia em Londres, Moraes e o ministro Dias Toffoli tiveram à disposição carros da marca Mercedes-Benz exclusivos, com motoristas particulares.
O alinhamento seguiu para a edição de 2025 do fórum, que acabou não ocorrendo, com mensagens atestando que a equipe de Vorcaro foi acionada diretamente por um assessor do ministro para emitir suas passagens aéreas.