Natural de Rodelas, no sertão da Bahia, a artista visual Yacunã Tuxá, de 32 anos, tem conquistado espaço no cenário nacional ao transformar em arte as memórias, os saberes e as vivências do povo Tuxá. Indígena, bissexual e estudante de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ela reúne atualmente 36 obras na exposição “Toda árvore tem raiz”, em cartaz na Caixa Cultural, no Centro do Rio de Janeiro.
A sexualidade ocupa lugar central em sua produção. Uma de suas obras mais conhecidas, “Mulher indígena e sapatão”, criada em 2019 e atualmente integrante do acervo do Masp, retrata uma jovem envolta pela bandeira LGBTQIA+.
Em entrevista ao jornal O Globo, Yacunã contou que precisou responder, ainda muito jovem, a perguntas sobre a existência de pessoas LGBTQIA+ entre os povos indígenas após deixar Rodelas para estudar em Salvador. Segundo ela, a convivência na cidade despertou questionamentos que, dentro de sua comunidade, já não representavam um conflito.
“Eu me assumi quando tinha 15 anos e foi difícil. Fui a primeira mulher a se assumir dentro da minha comunidade. Cresci vendo pessoas LGBTs, mas demorei para me assumir”, diz a artista. “Fui encontrar o entendimento de quem eu era dentro da minha própria cultura. Não foi fora dela”.
A experiência na capital baiana também levou a artista a refletir sobre as diferenças entre a visão ocidental e a compreensão indígena sobre gênero e sexualidade. “Nosso povo tinha uma liberdade sexual muito grande. A própria ideia binária de gênero que se faz, para muitas comunidades, nunca existiu. Não cabe falar dessas caixinhas que existem na cultura ocidental. A minha avó (Bezinha) foi a primeira pessoa a dizer que isso pode acontecer com qualquer pessoa”, lembra.
A figura da avó é recorrente em sua obra, assim como a presença de outras mulheres do povo Tuxá. Para Yacunã, elas tiveram papel decisivo na preservação da cultura indígena após a construção da Barragem de Itaparica, nos anos 1980, que inundou a antiga aldeia às margens do Rio São Francisco e forçou o deslocamento da comunidade para os arredores de Rodelas.
“Foram as mulheres do meu povo que articularam novas maneiras de seguirmos vivos, de manter a nossa tradição. Elas criaram ferramentas de resistência para que a gente conseguisse continuar sendo quem éramos com sabedoria. Entenderam que a educação precisava ser o nosso foco”, afirma a artista, ao explicar que foi inspirada por elas a seguir para Salvador em busca dos estudos.
Embora a inundação da antiga aldeia não apareça de forma explícita em suas obras, a memória do território permanece presente em sua produção. Para Vera Nunes, que assina a curadoria da mostra ao lado de Naine Terena, o trabalho da artista resgata aquilo que a água não conseguiu apagar. “Ela não faz uma crítica ao problema que aconteceu, mas um resgate porque quer manter viva a memória de seu povo. O que foi inundado não vai voltar. Então, o que pode voltar é a memória, a reza, o canto, a imagem que ela tem na cabeça dela e que nos é transportada”, afirmou ao O Globo.
A exposição também reúne cuias, cachimbos, maracas, moringas e esculturas produzidas pelas mulheres da aldeia, peças que marcaram o primeiro contato de Yacunã com a arte. “Os primeiros museus que visitei foram na aldeia mesmo. Essas peças são obras de arte que fazem parte do nosso cotidiano. A ideia é de que arte e vida não se separam”.
Com cerca de 30 mil seguidores nas redes sociais, Yacunã utiliza ferramentas digitais para ampliar o alcance das histórias, da memória e da cultura do povo Tuxá, demonstrando que tecnologia e tradição caminham juntas quando o objetivo é preservar e compartilhar saberes ancestrais.
Em 2024, Yacunã foi uma das vencedoras do Prêmio Sim à Igualdade Racial, na categoria Artes em Movimento, reconhecimento pelo impacto de sua produção artística e de sua atuação em defesa da representatividade indígena. Em Salvador, também assina o mural da maior empena artística da cidade, entregue neste ano, reforçando sua presença na paisagem urbana da capital baiana.