El Niño muito forte deve agravar seca no Nordeste e elevar risco de desastres no Brasil

El Niño muito forte deve agravar seca no Nordeste e elevar risco de desastres no Brasil

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

José Mion/Alô Alô Bahia

Matheus Lemos/Inema

Publicado em 03/08/2026 às 14:29 / Leia em 6 minutos

O fenômeno El Niño deve ganhar força ao longo do segundo semestre de 2026 e alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão, aumentando a probabilidade de eventos extremos em diferentes regiões do Brasil. A avaliação consta no Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em parceria com outros órgãos federais, que alerta para possíveis impactos sobre o regime de chuvas, temperaturas, recursos hídricos, agricultura e risco de desastres naturais.

No Nordeste, os principais impactos devem ocorrer durante o verão e o outono, especialmente na porção norte da região. A previsão indica redução da duração da estação chuvosa, prolongamento da estiagem, temperaturas acima da média e menor disponibilidade de água em rios e reservatórios.

O Painel El Niño destaca que o cenário atual da seca é mais preocupante do que o registrado em junho de 2023. Enquanto há três anos a seca moderada atingia cerca de 10% da região, hoje ela alcança aproximadamente 40% do território nordestino, indicando maior vulnerabilidade diante da intensificação do fenômeno. Além disso, muitas áreas ainda não recuperaram completamente suas reservas hídricas, o que pode agravar problemas de abastecimento e aumentar as perdas na agricultura dependente da chuva.

Na região Norte, especialmente na Amazônia, a tendência também é de redução das chuvas, temperaturas acima da média e atraso no início da estação chuvosa em parte da Amazônia Legal. Esse cenário favorece a persistência da estiagem, reduz a disponibilidade hídrica, aumenta o ressecamento da vegetação e amplia significativamente o risco de incêndios florestais. Outro efeito esperado é a diminuição gradual dos níveis dos rios. Embora boa parte das bacias ainda apresente condições próximas da normalidade, os indicadores mostram avanço da estiagem em diferentes sub-bacias da Amazônia. Caso não haja reposição significativa das chuvas nas próximas semanas, a resposta hidrológica tende a se intensificar, afetando a navegação, o abastecimento de água e atividades econômicas dependentes dos rios. A Climatempo também prevê temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média, principalmente em Roraima e no norte do Amazonas.

No Centro-Oeste, o El Niño deve atrasar o início da estação chuvosa, prolongando o período seco. A previsão inclui temperaturas elevadas, baixa umidade relativa do ar e maior risco de queimadas e incêndios florestais. Segundo o boletim, a combinação entre chuva abaixo da média e calor acima do normal favorece ondas de calor e amplia o potencial de propagação do fogo, sobretudo em áreas de vegetação nativa e produção agropecuária. Em contrapartida, o tempo seco tende a beneficiar a colheita do milho e do algodão de segunda safra.

No Sudeste, os efeitos mais frequentes devem ser temperaturas acima da média, ondas de calor mais duradouras e irregularidade das chuvas, principalmente no início da estação chuvosa. Embora o fenômeno não tenha relação direta com o volume de precipitação na região, o aumento das temperaturas intensifica a evaporação e reduz a umidade do solo. Caso as chuvas da primavera atrasem, o quadro de seca pode se agravar rapidamente. A Climatempo acrescenta que o calor persistente também deve elevar a demanda por água e energia elétrica nos próximos meses.

Historicamente, a região Sul é a que mais sente os efeitos do El Niño durante a primavera e o verão. A previsão aponta maior frequência de chuvas acima da média, temporais, cheias de rios, enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra. Segundo a Climatempo, os grandes acumulados registrados no Rio Grande do Sul em julho, que provocaram enchentes em diferentes municípios, já representam os primeiros impactos do fenômeno neste ano.

O Painel El Niño ressalta que a situação exige atenção especial porque, diferentemente de 2023, a região não apresenta déficit hídrico expressivo. Com o solo já mais úmido, aumenta o risco de transbordamento de rios diante de novos episódios de chuva intensa. Na agricultura, a maior disponibilidade de água pode favorecer culturas de inverno em determinadas fases, mas o excesso de chuva também eleva o risco de doenças fúngicas, dificulta a entrada de máquinas nas lavouras e pode atrasar operações de manejo e colheita.

O boletim foi elaborado pelo Inmet em conjunto com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Segundo o documento, há 100% de probabilidade de o El Niño permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com elevada possibilidade de atingir a categoria de muito forte, quando o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial supera 2°C.

Embora o fenômeno ocorra no Oceano Pacífico, seus efeitos alteram a circulação atmosférica em escala global, modificando o comportamento dos ventos, o transporte de umidade e a formação de sistemas de chuva. Na prática, isso favorece extremos climáticos, como enchentes, estiagens prolongadas, ondas de calor, queimadas e temporais. Os especialistas ressaltam, porém, que o El Niño não determina sozinho as condições do tempo, já que cada episódio possui características próprias e seus efeitos podem ser intensificados ou amenizados pela atuação de outros sistemas meteorológicos.

Diante da possibilidade de um episódio muito forte, os órgãos que integram o Painel El Niño recomendam o acompanhamento contínuo das previsões meteorológicas, hidrológicas e geológicas, além da atenção aos avisos e alertas oficiais. À população, a orientação é manter atualizado o cadastro para recebimento de alertas da Defesa Civil, conhecer as áreas de risco e as rotas de fuga da própria região e adotar medidas de autoproteção sempre que houver previsão de eventos extremos. As instituições informaram que continuarão divulgando boletins periódicos para subsidiar ações de prevenção, preparação e gestão de riscos durante a evolução do fenômeno.

Compartilhe

Alô Alô Bahia Newsletter

Inscreva-se grátis para receber as novidades e informações do Alô Alô Bahia