O estudante baiano Caio Lucena, de 20 anos, foi convocado para integrar a seleção brasileira que disputará o World Humanoid Robot Games, considerado um dos principais eventos internacionais de robótica humanoide. Aluno do curso de Sistemas de Informação da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Salvador, ele fará parte da delegação que representará o país em agosto, na China.
A equipe brasileira competirá na categoria Humanoid Adult Size Soccer (Large), modalidade de futebol de robôs humanoides em tamanho adulto, considerada uma das mais complexas da competição. O Brasil garantiu a vaga após o desempenho de destaque na RoboCup 2026, realizada na Coreia do Sul, e na edição anterior do próprio torneio, quando terminou na quinta colocação.
Para Caio, a convocação representa um marco pessoal e também para a pesquisa desenvolvida na Bahia. “Essa convocação é uma grande realização. Ter a oportunidade de representar o Brasil em uma competição que reúne as maiores potências tecnológicas do mundo é motivo de muito orgulho. Além disso, é a chance perfeita de mostrar que a Bahia é um forte polo de pesquisa e desenvolvimento. Essa convocação coloca a Bahia, através do BahiaRT, no mesmo patamar dessas potências e prova que somos totalmente capazes de competir em nível global”, destaca o jovem, em entrevista ao Alô Alô Bahia.
O estudante integra o Bahia Robotics Team (Bahia RT), equipe criada pelo Centro de Arquitetura de Computadores, Sistemas Inteligentes e Robótica (ACSO), da Uneb. Fundado em 2006, o grupo reúne pesquisadores e estudantes interessados em robótica e inteligência artificial, com foco no desenvolvimento de pesquisas e na participação em competições internacionais, como a RoboCup. O time é liderado desde a fundação pelo professor Marco Simões, doutor em Ciência da Computação com especialidade em Inteligência Artificial.
Segundo Caio, a trajetória até a convocação exigiu dedicação e superação. “O caminho até aqui exigiu muita resiliência para seguirmos firmes com o nosso projeto. Nosso principal adversário tem sido o tempo. Como não tivemos um prazo tão longo para desenvolver tudo na sua totalidade, ainda estamos em processo de aprimoramento. Mesmo assim, o prêmio de Melhor Inovação que recebemos na RoboCup da Coreia do Sul, neste ano, prova que estamos na direção certa. Além disso, enfrentamos o desafio diário de conciliar essa rotina intensa de pesquisa com as nossas obrigações na graduação”, contextualiza.
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Como os robôs aprendem a jogar futebol
O projeto desenvolvido pela equipe combina robótica, inteligência artificial e sistemas multiagentes para ensinar robôs humanoides a se movimentarem e tomarem decisões em campo. “O nosso projeto atua em duas frentes principais, que são o desenvolvimento dos movimentos dos robôs e o comportamento deles, ou seja, como eles utilizam esses movimentos. Nós usamos o futebol de forma lúdica justamente para isso, como um cenário para ensiná-los a se coordenarem e se movimentarem de forma inteligente no espaço, tomando as decisões corretamente em cada situação que ocorrer”, explica.
Segundo ele, o treinamento acontece inicialmente em simuladores de computador, onde os robôs aprendem a andar, chutar e tomar decisões. Depois, esse conhecimento é transferido para os robôs físicos, que chegam à quadra preparados para executar as tarefas.
Na China, o desafio será enfrentar equipes com maior tradição na modalidade. “A nossa maior dificuldade será competir contra times que, por enquanto, são mais experientes do que nós, em um torneio onde o nível será realmente altíssimo”, diz.
Além da experiência dos adversários, ele destaca a complexidade técnica do trabalho. “No fim das contas, é como ensinar cinco crianças a se coordenarem entre si. Precisamos explicar cada detalhe do que têm que fazer, como se movimentar, como se comunicar, para onde ir e como jogarem juntas, atribuindo um comportamento e uma função específica para cada uma no time dependendo do momento e das condições de jogo”.
Para Caio, a convocação também ajuda a mostrar a força da produção científica baiana. “Eu gostaria que todo baiano reconhecesse a Bahia como um palco de desenvolvimento de tecnologia e pesquisa, que sentisse orgulho do que construímos e também convidar todos para conhecerem o BahiaRT como uma equipe que leva essa inovação da Bahia afora”, reforça o jovem, que vê a vaga para representar o Brasil não só uma vitória, mas reflexo de que é possível desenvolver pesquisa muito séria e de excelência internacional dentro da UNEB. “Nós provamos que a Bahia está cheia de talentos capazes de gerar inovação e tecnologia real, competindo de igual para igual mundialmente”, celebra.

Caio, 3º da esquerda para a direita, antes da competição na Coreia, e Marco Simões, na extrema direita da foto
A competição
O World Humanoid Robot Games é organizado pelo Governo de Pequim e pela World Robot Cooperation Organization, em parceria com a RoboCup. Considerado o primeiro campeonato multidisciplinar dedicado exclusivamente a robôs humanoides, o evento reúne universidades e centros de pesquisa de diversos países.
A delegação brasileira é formada por seis estudantes de cinco universidades (USP, UFPE, CEIA-UFG, Uneb e Centro Universitário FEI), além de pesquisadores da área. A equipe será comandada por Flavio Tonidandel, pesquisador em inteligência artificial e vice-presidente da RoboCup Brasil e da RoboCup Federation.
Além das disputas esportivas, que incluem futebol, atletismo, dança e ginástica, a competição também propõe desafios inspirados em situações reais, como manufatura industrial, serviços domésticos e resposta a emergências, estimulando o desenvolvimento e a aplicação prática da robótica humanoide.