Tem gente que chega apenas para beber uma cerveja gelada. Outros aparecem pelo samba de mesa, pelo forró, pelo caldo servido no copo americano ou pelo camarão fumegando na frigideira. Mas há também quem atravesse a rua, veja a imagem de Zé Pilintra guardando a entrada e sinta que foi chamado para entrar.
No meio do comércio do Petromar, em Stella Maris, o Boteco D’ Rua se transformou em um espaço onde religiosidade de matriz africana, memória afetiva e boemia convivem sem cerimônia. Entre imagens de entidades, árvores, chão de areia, cerveja estupidamente gelada e mesas de plástico espalhadas ao ar livre, o sagrado divide espaço com o cotidiano.
“Eu costumo dizer que o Boteco D’ Rua é o resgate da fé das pessoas”, afirma João Paulo Melo Borges, criador do espaço. “Tem gente que chega aqui, bota a moeda, deixa a cachaça e vai embora. Outros falam: ‘eu vi ele no meu sonho’. Tem quem apenas sente, beba e vá embora”, conta.
O bar surgiu após a pandemia, quando João precisou interromper as atividades de uma antiga loja de roupas com estampas inspiradas na velha baianidade. Ao encontrar um pequeno trailer de cachorro-quente diante de um terreno abandonado em Stella Maris, decidiu tirar do papel um antigo desejo: criar um bar inspirado na cultura de matriz africana.
“Eu já tinha a ideia de fazer um bar com temática de umbanda e candomblé”, lembra.
A primeira imagem instalada no espaço foi justamente a de Zé Pilintra, figura popular nas religiões afro-brasileiras e considerada símbolo de proteção, boemia e caminhos abertos. Aos poucos, o espaço ganhou outras referências religiosas, além de imagens de orixás, caboclos e até Jesus Cristo.
“Aqui você pode entrar com sua bíblia, seu guia ou seu alcorão. O que eu não admito é preconceito”, afirma João, que define o local como um “bar ecumênico”.
Apesar da forte identidade espiritual, ele faz questão de diferenciar o espaço de um terreiro religioso. “Não existe assentamento aqui. Não existe ritual. São imagens que se transformam em energia”, explica. Entre brincadeiras e códigos da casa, surgiu até uma regra informal: “Se beber, não incorpore”.
Segundo João, muitos frequentadores chegam ao local movidos pela curiosidade e acabam criando conexão afetiva com o ambiente. Alguns choram diante das imagens; outros permanecem em silêncio observando os altares improvisados entre copos, garrafas e música ambiente.
“Muita gente que vem aqui são pessoas que já frequentaram terreiro e se afastaram. Aí chegam, escutam uma música, olham uma imagem e dizem: ‘eu precisava disso’”, relata.
Além da atmosfera espiritual, o Boteco D’ Rua também se consolidou como ponto de encontro cultural no bairro. O espaço recebe samba de roda, forró, transmissões de jogos de futebol e eventos gastronômicos, como festivais de churrasco realizados em parceria com comerciantes locais.
Para João, o bar também representa uma tentativa de resgatar a convivência de rua típica de Salvador. “A cidade precisa voltar a viver os bairros, o boteco, as pessoas curtindo a própria vizinhança”, diz.
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