Igreja ancestral dos Kiriri passa por restauração histórica e revela achados raros na Bahia

Igreja ancestral dos Kiriri passa por restauração histórica e revela achados raros na Bahia

Redação Alô Alô Bahia

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José Mion/Alô Alô Bahia

Fernando Barbosa - Ascom/IPAC

Publicado em 12/05/2026 às 14:57 / Leia em 4 minutos

Com investimento superior a R$ 300 mil, o Governo da Bahia avança na terceira etapa da restauração da Igreja de Nosso Senhor da Ascensão, localizada na aldeia Kiriri, em Mirandela, distrito de Banzaê. Construído no início do século XVIII com participação direta do povo Kiriri, o templo passa por um trabalho minucioso de recuperação que já revelou preciosidades históricas e emocionou moradores e restauradores envolvidos na obra.

A intervenção, coordenada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), contempla a recuperação de altares laterais, imagens sacras, objetos litúrgicos, peças em madeira, elementos metálicos e 14 quadros da Via Sacra. Os serviços são executados por duas equipes de restauradores em sistema de revezamento quinzenal, dentro de um Termo de Cooperação Técnica firmado entre o IPAC e a Prefeitura de Banzaê.

Fachada da Igreja de Nosso Senhor da Ascensão, na aldeia Kiriri | Foto: Fernando Barbosa/IPAC

Entre as principais descobertas do processo está a cor original do altar da igreja, um tom verde-água encontrado após a remoção de quatro camadas de tinta acumuladas ao longo dos anos. Segundo a restauradora Ana Rocha, que atua há 43 anos no IPAC, o altar estava pintado de azul forte quando a equipe iniciou o trabalho. “Fomos descobrindo outras cores até encontrar esse verde-água belíssimo”, contou.

Ana também destacou o estado delicado das peças restauradas, muitas delas comprometidas pelo tempo, exigindo limpeza, nivelamento, recuperação pictórica e reconstrução detalhada. A obra em Mirandela marca ainda sua despedida do instituto antes da aposentadoria. “Existe uma energia diferente aqui, uma ligação muito profunda da comunidade com esse espaço”, afirmou.

Restauro revelou detalhes como cor original do altar | Foto: Fernando Barbosa/IPAC

O trabalho também envolve a recuperação de quadros da Via Sacra, muitos deles com rachaduras, perdas e partes destruídas. Restaurador há 30 anos, Adailton Ezequiel explicou que o processo inclui tratamento químico, remoção de tintas e reconstrução de áreas danificadas. Já Washington Barache, responsável pela recuperação da prataria e objetos metálicos, destacou o cuidado manual exigido pelas peças antigas e delicadas.

Para o diretor-geral do IPAC, Marcelo Lemos Filho, a restauração vai além da preservação física da igreja. “Cada detalhe recuperado carrega a história dos Kiriri, da fé dessa comunidade e da própria formação cultural do nosso estado”, afirmou.

Trabalho minucioso reforçar importância dos restauradores | Foto: Fernando Barbosa/IPAC

A prefeita de Banzaê, Patrícia Almeida, ressaltou a mobilização coletiva em torno da recuperação do templo. “Essa igreja é ancestral e faz parte da história do nosso povo. Desde quando o telhado caiu existia esse desejo coletivo de salvar esse patrimônio”, declarou.

O sentimento é compartilhado pela comunidade indígena. O cacique Bernardino afirmou que acompanhar a restauração representa a realização de um sonho antigo. “Essa igreja foi construída pelos nossos antepassados. Ela carrega a memória e a fé do nosso povo”, disse. A representante indígena Suely Kiriri também acompanha diariamente as obras e afirma que a recuperação do espaço representa um marco histórico para Mirandela.

Equipe à frente da restauração | Foto: Fernando Barbosa/IPAC

A recuperação da Igreja de Nosso Senhor da Ascensão vem sendo executada em etapas desde 2021. Na primeira fase, o Governo da Bahia investiu R$ 500 mil na recuperação arquitetônica do imóvel, incluindo reconstrução do telhado, recuperação do piso, restauração de portas e janelas, além da implantação de novos sistemas elétricos e de iluminação. Em 2023, uma nova etapa possibilitou o restauro do altar-mor, mobiliários e imagens sacras históricas.

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