Cirurgia de afirmação de gênero com pele de tilápia é realizada pela 1ª vez no Nordeste

Cirurgia de afirmação de gênero com pele de tilápia é realizada pela 1ª vez no Nordeste

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Redação Alô Alô Bahia

Divulgação

Publicado em 31/10/2026 às 14:59

Procedimentos foram realizados em três pacientes no Hospital das Clínicas da UFPE, em Pernambuco, com técnica desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará

Pela primeira vez no Nordeste, cirurgias de afirmação de gênero com utilização de pele de tilápia foram realizadas em mulheres trans. Os procedimentos aconteceram nos dias 27 e 28 de outubro, no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, e beneficiaram três pacientes atendidas pelo Espaço de Acolhimento e Cuidado de Pessoas Trans e Travestis da unidade.

A técnica inovadora, chamada de neovaginoplastia, utiliza pele de tilápia-do-nilo para reconstruir ou ampliar o canal vaginal. O objetivo é proporcionar maior profundidade, largura e elasticidade à neovagina, contribuindo para a funcionalidade sexual, a autoimagem corporal e a qualidade de vida das pacientes.

O procedimento integra uma pesquisa clínica desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com o Hospital das Clínicas da UFPE. A investigação busca avaliar os benefícios da utilização da pele de tilápia em cirurgias de afirmação de gênero.

Segundo o professor de ginecologia da UFC e da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), Leonardo Bezerra, responsável pelo desenvolvimento da técnica, os estudos começaram em 2017, inicialmente voltados à reconstrução do canal vaginal de mulheres com a síndrome de Rokitansky, condição congênita caracterizada pela ausência do canal vaginal.

Cirurgia de afirmação de gênero com pele de tilápia é realizada pela 1ª vez no Nordeste

“Mais de 50 casos já foram realizados com a correção do distúrbio de agenesia vaginal, que é a ausência congênita de canal vaginal, chamada Síndrome de Rokitansky. A pele de tilápia liofilizada funciona como um arcabouço para crescimento e proliferação celular, criando um canal vaginal”, explica o pesquisador, que participou das cirurgias em Pernambuco e treinou a equipe médica local.

Como funciona a técnica

A pele de tilápia passa por um processo de preparação e esterilização antes de ser utilizada como uma estrutura biológica que favorece o crescimento de novas células e a formação do tecido vaginal.

De acordo com Leonardo Bezerra, a expectativa é que o material permita superar algumas limitações das técnicas convencionais, como a inversão da pele do pênis, que pode restringir as dimensões do canal vaginal.

“Nossa hipótese é que o uso da pele de tilápia possa promover um canal vaginal fisiologicamente melhor: mais longo, largo, elástico e funcional para a relação sexual”, afirma.

O pesquisador também destaca o baixo custo do material e sua segurança após o processamento e a esterilização. Os resultados específicos da aplicação em mulheres trans, entretanto, ainda estão sendo avaliados pela pesquisa clínica.

Pacientes serão acompanhadas durante um ano

Das três cirurgias realizadas no Hospital das Clínicas da UFPE, duas foram procedimentos primários de afirmação de gênero e uma foi uma cirurgia secundária, destinada à correção de complicações de uma intervenção anterior.

A ginecologista Aleide Tavares, integrante da equipe do hospital, explica que a instituição continuará utilizando a técnica em novas cirurgias ao longo de um ano, acompanhando a adaptação do material e o grau de satisfação das pacientes.

“Vamos usar a pele de tilápia nas próximas cirurgias realizadas aqui no HC, ao longo de um ano, acompanhando a evolução da adaptação da pele de tilápia e o grau de satisfação das pacientes com essa possibilidade de uma melhor funcionalidade da vagina”, afirma.

O estudo é realizado em parceria com o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC e contempla três aplicações: reconstrução vaginal em pacientes com síndrome de Rokitansky, reconstrução do canal vaginal em mulheres submetidas à radioterapia e ampliação do canal em cirurgias de afirmação de gênero.

Primeira cirurgia em mulher trans ocorreu em 2024

Embora a técnica já fosse estudada no Ceará desde 2017, a primeira neovaginoplastia com pele de tilápia em uma mulher trans foi realizada em dezembro de 2024, no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo.

Os procedimentos realizados agora em Pernambuco representam a primeira aplicação da técnica em cirurgias de afirmação de gênero no Nordeste, conforme informações divulgadas pelo jornal O POVO, que ouviu o pesquisador responsável.

A expectativa das equipes médicas é que o acompanhamento clínico das pacientes contribua para ampliar as evidências científicas sobre a segurança, a eficácia e os benefícios da técnica, que também possui aplicações no tratamento de queimaduras e em outras modalidades de reconstrução vaginal.

Compartilhe

Alô Alô Bahia Newsletter

Inscreva-se grátis para receber as novidades e informações do Alô Alô Bahia