Um dos thrillers mais inquietantes de Jan Komasa, “Anniversary: Mudança Radical” acaba de chegar ao Prime Video no Brasil e pode ser descoberto pelo público justamente em uma semana em que outro trabalho do diretor também desembarcou no streaming, o igualmente tenso “Bom Garoto”. Os dois filmes seguem caminhos bastante diferentes, mas compartilham uma característica marcante do cineasta polonês, que é a capacidade de transformar relações em situações cada vez mais desconfortáveis e tensas.
Em “Anniversary”, Diane Lane e Kyle Chandler interpretam Ellen e Paul Taylor, um casal que reúne os quatro filhos para comemorar 25 anos de casamento. A celebração familiar, no entanto, começa a desandar quando Josh (Dylan O’Brien), o filho mais novo, aparece acompanhado da namorada, Liz (Phoebe Dynevor).
O problema é que Ellen conhece Liz de antes. A jovem foi sua aluna na universidade e, anos atrás, já defendia ideias relacionadas à concentração de poder. Agora, ela está envolvida com um movimento político chamado “A Mudança”, que começa como uma proposta aparentemente moderna para superar a polarização dos Estados Unidos, mas aos poucos revela uma face autoritária.

O perigo não chega à família Taylor como uma ameaça evidente, mas como alguém que recebe um convite para sentar à mesa. Esse é um dos melhores elementos do filme, quando Komasa transforma a própria casa em campo de batalha. O movimento político cresce ao mesmo tempo em que os conflitos entre pais e filhos se aprofundam e aquilo que inicialmente parece uma divergência ideológica passa a interferir diretamente nos relacionamentos, nas escolhas profissionais e na própria estrutura da família.
“Anniversary” não é um filme sobre discursos políticos e segue uma estratégia mais íntima. O avanço de “A Mudança” é percebido principalmente pelas consequências que provoca dentro da família, enquanto Ellen tenta convencer os filhos de que há algo muito mais perigoso por trás do discurso conciliador de Liz.
A tensão funciona especialmente bem quando o filme coloca Ellen, Liz e Josh no mesmo espaço. De um lado, uma mãe convencida de que está tentando proteger o filho e, do outro, uma jovem que sabe se apresentar de maneira suficientemente cordial para não parecer uma ameaça. No meio, Josh, que começa a enxergar na namorada não apenas uma parceira, mas também a possibilidade de conquistar reconhecimento.
Diane Lane sustenta boa parte dessa tensão. Ellen é inteligente e percebe o perigo antes dos demais, mas também é uma personagem marcada pelo orgulho e pela dificuldade de aceitar que os filhos façam escolhas que considera equivocadas. Kyle Chandler, por sua vez, interpreta Paul como o contraponto conciliador, alguém que tenta preservar a família enquanto o conflito político cresce ao redor deles.
O resultado é um suspense que não explica tudo de vez e vai deixando o espectador perceber, junto com os personagens, que as relações estão mudando. O filme, no entanto, não escapa de algumas fragilidades. A ascensão de “A Mudança” acontece em determinados momentos de maneira acelerada e algumas transformações políticas poderiam ganhar mais desenvolvimento. Na segunda metade, a alegoria fica menos sutil.
Ainda assim, a premissa permanece poderosa, de imaginar o autoritarismo não como algo que chega de uma hora para outra, mas como uma ideia que pode conquistar espaço gradualmente, inclusive dentro de ambientes familiares aparentemente protegidos.

A ideia central inevitavelmente desperta lembranças de histórias como “O Conto da Aia”, especialmente pela maneira como um movimento político aparentemente gradual passa a interferir na liberdade e nas relações pessoais. A comparação ganha uma camada extra para quem reconhece o elenco. Madeline Brewer, que interpreta Anna em “Anniversary”, viveu Janine em “O Conto da Aia”, enquanto McKenna Grace, que também está no filme, interpretou Esther Keyes na série.
Os filmes, claro, seguem caminhos diferentes. “Anniversary” não adapta nem reproduz a história de “O Conto da Aia”, mas compartilha com a série a ideia de acompanhar uma sociedade em transformação e perceber os efeitos dessa mudança sobre pessoas que, inicialmente, ainda acreditam estar protegidas pela normalidade.
A chegada de “Anniversary: Mudança Radical” ao streaming acontece na mesma semana de “Bom Garoto”, outro filme de Jan Komasa, lançado no Brasil em 10 de setembro com exclusividade no Filmelier+, canal disponível dentro do Prime Video. Embora tenham histórias distintas, os dois compartilham o interesse do diretor por relações familiares atravessadas por controle, manipulação e tensão.
Em “Bom Garoto”, um jovem de 19 anos é sequestrado por um casal que o submete a uma espécie de “reabilitação” forçada, transformando o ambiente doméstico em uma prisão psicológica. Já em “Anniversary”, é a própria família que se torna o campo de batalha de uma disputa política e ideológica. Em ambos, Komasa aposta na sensação crescente de que algo está profundamente errado. Para quem assistiu a “Bom Garoto”, “Anniversary: Mudança Radical” funciona como um complemento interessante ao trabalho do diretor, ainda que siga por um caminho mais político e menos claustrofóbico.
“Anniversary: Mudança Radical” está disponível no Prime Video.