Aos 45 anos, Márcia Chagas recebeu o diploma de Pedagogia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), em 2026, depois de passar décadas longe das salas de aula. Mãe de três filhos, trabalhadora, dona de casa e moradora da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, ela decidiu voltar a estudar aos 40 anos para provar dentro da própria família que a universidade também poderia fazer parte da realidade de quem vive em uma comunidade.
Márcia havia interrompido os estudos aos 15 anos. Retomou aos 18, mas só conseguiu concluir o ensino médio aos 24. Depois vieram os filhos e as responsabilidades da vida adulta, e o ensino superior acabou ficando para depois. A mudança aconteceu quando ela ouviu em casa que a universidade não parecia ser um lugar possível para a família. Em busca de uma nova oportunidade, entrou no Gradua Nóiz, pré-vestibular social mantido pela ONG Nóiz, na Cidade de Deus, e conquistou uma vaga na UERJ em 2022, ficando em segundo lugar.
“Essa conquista é profundamente dela. Foi a Márcia quem conciliou maternidade, trabalho, casa e estudos. Foi ela quem enfrentou o cansaço e teve coragem para recomeçar. Mas não existe mérito sem oportunidade”, afirmou André Melo, presidente da ONG Nóiz, em entrevista ao portal Só Notícia Boa.
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A graduação trouxe uma nova rotina para Márcia, que precisou dividir o tempo entre as aulas, os trabalhos acadêmicos, o emprego, a maternidade e as tarefas domésticas. Durante o curso, ela também levou a própria trajetória para dentro da universidade. Seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) contou a história de sua vida e, em 2025, ganhou uma versão em livro, publicada com o título “Minha Vida é um Livro”.
O caminho percorrido por Márcia também passa pelo trabalho desenvolvido pelo Gradua Nóiz, que oferece preparação gratuita para moradores da Cidade de Deus que desejam disputar vagas em universidades. Para André Melo, histórias como a dela mostram a importância do acesso à educação. “Não existe mérito sem oportunidade. Talento, inteligência e vontade nunca faltaram dentro das comunidades. O que muitas vezes falta é acesso, estrutura e alguém que diga: ‘Você também pode chegar lá’”, disse.
“Não queremos ser protagonistas da história de ninguém. Nosso papel é abrir portas, oferecer ferramentas, acolher e acreditar junto. Quando vemos uma aluna nossa recebendo o diploma de uma universidade como a UERJ, sentimos um orgulho danado e entendemos que nosso trabalho foi feito. A conquista é dela. O orgulho é de Nóiz”, concluiu André.