Quem passa por uma praça, museu, cinema ou biblioteca de Salvador pode se deparar com uma cena pouco convencional. Tabuleiros de xadrez espalhados pelo espaço, jogadores concentrados diante das peças e pessoas que nunca tiveram contato com o esporte sendo convidadas a experimentar. É assim que o Ô Rei – Clube de Xadrez vem ajudando a transformar a relação da cidade com o jogo.
Criado em 2022 por Gina Leite, gerente de projetos em uma ONG internacional de conservação da vida silvestre, o coletivo tem uma identidade nordestina e baiana e nasceu com a proposta de reunir enxadristas interessados também em transformação social.
Independente e sem personalidade jurídica, o Ô Rei atua em diferentes frentes. Em Salvador, articula a Comunidade Cavaleiros do Centro, voltada à promoção do chamado xadrez de rua. No âmbito estadual, participa dos debates sobre a gestão da modalidade na Bahia, apoia iniciativas de coletivos do interior e lidera uma pesquisa histórica dedicada à baiana Ruth Cardoso, primeira mestre internacional brasileira, cujo centenário é celebrado em 2026 (conheça mais a história dela). No cenário nacional, também desenvolve ações em parceria com a Liga Brasileira de Xadrez Feminino.
Mas é nas ruas que a iniciativa ganha um de seus contornos mais inusitados.
O projeto de levar o xadrez para espaços públicos surgiu em agosto de 2025, a partir da articulação entre o Ô Rei e o coletivo Desvendando o Xadrez. Atualmente, o Cavaleiros do Centro é liderado pelo Ô Rei e pela 1ª Liga de Xadrez do Lobato. A proposta rompe com o modelo tradicional de clubes, geralmente associados a sedes fixas, ambientes reservados e grupos já familiarizados com a modalidade.

A ideia, ao contrário, é ocupar a cidade, especialmente o Centro de Salvador. No primeiro ano de atividades, o coletivo passou por mais de 12 espaços públicos, em uma área que se estende do Centro até o Lobato.
A experiência mostrou que o xadrez pode ganhar novos significados quando sai dos ambientes convencionais. “O xadrez no espaço público, em ambientes abertos, é mais convidativo. Por isso é que é tão transformador realizar ações no hall do Cine Glauber Rocha e no Museu de Arte Contemporânea, por exemplo. Transformador também porque os espaços culturais atraem mais mulheres, então observamos mais participação das meninas e mulheres nestes espaços do que em torneios”, diz Gina, ativista do xadrez feminino no Brasil, pós-graduada em Xadrez Pedagógico e Técnico e árbitra auxiliar da CBX, em conversa com o Alô Alô Bahia.
A diversidade de participantes é justamente uma das características que mais chama a atenção dela. Entre os frequentadores estão pessoas que jogam xadrez pela internet, mas nunca haviam encontrado outros praticantes presencialmente em Salvador. Há também quem chegue inicialmente apenas para acompanhar filhos ou parceiros e acabe se arriscando diante do tabuleiro.
“Diversas pessoas, especialmente mulheres, vão aos encontros para acompanhar seus pares ou filhos e inicialmente não se sentem confortáveis para jogar, imaginam que o jogo é demasiadamente complexo. É emocionante ver essa barreira sendo vencida quando a pessoa recebe apoio personalizado para entender o jogo. Assim as pessoas têm a oportunidade de aprender e assumir o risco de se frustrarem ao perder”, reflete.

Os encontros também se tornaram um espaço de socialização para pessoas neurodivergentes, que encontram no grupo um interesse comum para compartilhar, além de atrair crianças em diferentes níveis de contato com a modalidade. Algumas chegam para aprender as regras básicas, enquanto outras já procuram partidas e querem se aprofundar no jogo.
A iniciativa, inclusive, já atraiu famílias de fora da capital. Crianças acompanhadas pelas mães vieram de Camaçari e São Francisco do Conde para participar dos encontros em Salvador. Para Gina, essa experiência ajuda a desconstruir uma imagem tradicionalmente associada ao xadrez.
A ocupação dos espaços públicos contribui para isso ao colocar jogadores e tabuleiros em contato direto com pessoas que talvez nunca procurassem um clube ou torneio. A intenção é mostrar que o xadrez pode ser, ao mesmo tempo, esporte, lazer, aprendizado e ferramenta de transformação social.
Em parceria com a Primeira Liga de Xadrez do Lobato, o Ô Rei pretende ampliar essa atuação, estimulando a participação da comunidade e apoiando outros grupos que promovem a modalidade em Salvador. A ideia é contribuir para uma prática mais descentralizada e geograficamente acessível.
Além das possibilidades ligadas à educação, ao lazer e ao esporte, o coletivo também enxerga no xadrez potencial para ações sociais, inclusive em ambientes onde as pessoas estão privadas de liberdade. Em uma cidade conhecida pelas manifestações culturais que ocupam suas ruas e praças, o tabuleiro aparece, assim, como mais um elemento capaz de transformar o espaço público em lugar de encontro. E, em Salvador, uma partida pode começar em praticamente qualquer lugar.

Programação de setembro
Em setembro, o Cavaleiros do Centro amplia a ocupação de espaços públicos de Salvador com encontros gratuitos em diferentes regiões da cidade. A programação começa neste sábado (5), às 9h, na Praça Joanes Leste, no Lobato, próxima à quadra poliesportiva e ao Colégio Militar do Lobato, com apoio da Associação de Moradores do Lobato. No dia 11, das 9h30 às 12h, a atividade acontece na Biblioteca Anísio Teixeira, na Avenida Sete de Setembro, no Centro.
Já no dia 19, das 14h às 18h, os tabuleiros chegam ao Ginásio do Sindicato dos Bancários, na Ladeira dos Aflitos. No dia 26, das 14h às 18h, o coletivo participa da programação oficial da Primavera dos Museus, no Museu de Arte Contemporânea da Bahia, na Graça. Fechando o mês, no domingo (27), às 10h30, o encontro será realizado no Cine Glauber Rocha, na Praça Castro Alves.