Tradicional e secular, Festa da Boa Morte é celebrada em Cachoeira

Tradicional e secular, Festa da Boa Morte é celebrada em Cachoeira

Redação Alô Alô Bahia

redacao@aloalobahia.com

Kirk Moreno

Alô Alô Bahia

Publicado em 14/08/2026 às 20:19

Com mais de dois séculos de história, a tradicional Festa de Nossa Senhora da Boa Morte tem movimentado Cachoeira, no Recôncavo Baiano, desde a última quarta-feira (12). Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 2010, o festejo segue até a próxima segunda-feira (17), reunindo manifestações de fé e cultura em uma celebração marcada pela união entre o catolicismo e elementos das religiões de matrizes africanas.

Nesta sexta-feira (14), Dia de Nossa Senhora da Boa Morte, a programação começou por volta das 19h30, com um cortejo em que as irmãs da confraria caminharam da sede, com velas nas mãos, até a Capela da Irmandade, onde foi realizada uma Missa Solene. A celebração atraiu moradores, visitantes de diferentes regiões do Brasil e também estrangeiros.

Organizada pela Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, confraria religiosa afro-católica formada por mulheres negras, a festa é realizada anualmente no mês de agosto, período dedicado à santa que dá nome ao grupo. Durante seis dias, as ruas do Centro Histórico de Cachoeira recebem procissões, missas, alvoradas, cortejos, sambas de roda e apresentações culturais, além da distribuição de pratos tradicionais do Recôncavo, como feijoada, cozido e caruru.

A programação começou na quarta-feira (12), com uma romaria e a reinauguração do Memorial da Irmandade da Boa Morte, que passou a receber a exposição “Senhoras da Liberdade”, com fotografias de Pierre Verger e outros itens do acervo ligado à trajetória da confraria. Na quinta-feira (13), o calendário religioso teve o translado da esquife de Nossa Senhora da Boa Morte, da Capela D’Ajuda para a Capela da Irmandade. Em seguida, foi realizada a Missa em memória das irmãs falecidas. A noite foi encerrada com a tradicional Ceia Branca, refeição sagrada e coletiva das irmãs.

No sábado (15), Dia Festivo em Honra a Nossa Senhora da Glória, as atividades começam às 9h, com a Alvorada Festiva. Às 9h30, o Cortejo da Irmandade segue da sede da Boa Morte até a Igreja Matriz, onde será realizada, às 10h, a Missa Solene de Nossa Senhora da Glória, com posse da Comissão 2027. Na sequência, a imagem percorre as ruas do Centro Histórico.

Ainda no sábado, a programação inclui a tradicional Valsa das Irmãs da Boa Morte, às 12h, seguida da distribuição de feijoada para a comunidade, às 12h30. A partir das 13h, manifestações e apresentações culturais ocupam a programação, que também terá o Samba de Roda Esmola Cantada, às 16h; o Samba de Roda de Dona Dalva, às 18h; o Grupo Afro Barroco Jejê Nagô, às 20h; às 22h, show em tributo aos Tincoãs, com a cantora Ana Paula Albuquerque; e, por fim, show de Gerônimo Santana, à 0h.

As atividades continuam no domingo (16), quando haverá distribuição de cozido na sede da Irmandade, às 18h, acompanhada pelo Samba de Roda da Rua da Feira. Às 20h, será a vez do Samba de Roda Filhos do Caquende. Na segunda-feira (17), último dia do festejo, a programação começa às 18h, com a distribuição do tradicional caruru e o Samba de Roda Filhos da Barragem, às 20h.

 

Sobre a Irmandade

A história da Irmandade da Boa Morte remonta ao século XIX e está diretamente ligada à resistência da população negra na Bahia. Embora não exista uma data precisa para sua criação em Cachoeira, registros e estudos apontam sinais da manifestação entre 1810 e 1840. Os primeiros indícios da presença do grupo na Bahia aparecem em Salvador, a partir de mulheres escravizadas vindas da África. Diante das perseguições, integrantes teriam deixado a capital e seguido para Cachoeira, onde a confraria se estabeleceu em meio ao desenvolvimento econômico do Recôncavo.

Na cidade, as irmãs se instalaram inicialmente em uma casa na Rua Ana Nery, onde desenvolveram ações sociais. Entre suas atividades estava o comércio, utilizado como forma de arrecadar recursos para comprar a liberdade de pessoas escravizadas. Ao longo do tempo, a Irmandade ampliou sua atuação na defesa da dignidade da população negra e passou a desenvolver também ações voltadas à educação.

A trajetória da confraria é marcada ainda pela resistência para manter sua fé e ancestralidade. As integrantes cultuavam Nossa Senhora, mas buscavam estabelecer uma relação entre a devoção católica e referências de suas tradições africanas. Em diferentes momentos, enfrentaram dificuldades para celebrar suas cerimônias em igrejas de Cachoeira, em um contexto de racismo e resistência à presença de mulheres negras e às matrizes religiosas que carregavam.

A projeção da Irmandade para além de Cachoeira ganhou força a partir da década de 1970, quando registros fotográficos passaram a levar a imagem das integrantes para outros países. Entre as décadas de 1980 e 1990, já reconhecida nacional e internacionalmente, a Irmandade recebeu imóveis por meio de doações, entre eles os espaços que atualmente abrigam sua sede e a Capela da Irmandade da Boa Morte, na Rua 13 de Maio.

Compartilhe

Alô Alô Bahia Newsletter

Inscreva-se grátis para receber as novidades e informações do Alô Alô Bahia