Quando começou a vender brownies, ovos de Páscoa e pequenas encomendas ainda no ensino médio, Rick Blanco não imaginava que se tornaria referência em um nicho praticamente inexistente em Salvador. Hoje, cerca de dez anos depois, o jovem empreendedor é conhecido como o “Boleiro dos Orixás”, uma marca que une confeitaria artística, ancestralidade afro-brasileira e empreendedorismo criativo.
A trajetória começou dentro de casa. Foi preparando bolos para os aniversários dos pais que Rick descobriu uma vocação que mais tarde se transformaria em negócio. Autodidata, aprendeu técnicas pela internet e começou a receber as primeiras encomendas aos 16 anos. “A cozinha sempre foi o espaço mais confortável de uma casa. Sempre vi a comida como elemento que pode unir as pessoas e fortalecer ainda mais todos os laços”, afirma.
Na época, ainda não existia um plano de negócios. O ponto de virada veio quando percebeu uma demanda pouco explorada: as festas de candomblé já utilizavam bolos em celebrações, obrigações religiosas e aniversários ligados aos orixás, mas havia poucos profissionais especializados em transformar os símbolos dessas tradições em peças personalizadas.
Em 2019, decidiu assumir oficialmente a identidade que o tornaria conhecido no mercado. A decisão, porém, não foi simples. “Eu tinha medo de ser rotulado apenas como confeiteiro de bolo de axé e perder alguns clientes por questões de racismo religioso”, conta. O receio de Rick não era infundado.
Dados do Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi), mostram que a intolerância religiosa continua sendo uma realidade na Bahia. Entre 2023 e 2025, o órgão contabilizou 89 casos de intolerância religiosa e 215 ocorrências de racismo. Apenas em 2025, a Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin) registrou 506 denúncias relacionadas aos dois tipos de crime.
Nesse contexto, assumir publicamente uma marca associada às religiões afro-brasileiras representava mais do que uma estratégia comercial. Era também uma afirmação identitária.
“Eu utilizo a confeitaria para educar culturalmente as pessoas”, diz Rick Blanco.
Boleiro dos Orixás
A escolha de Rick também dialoga com um movimento mais amplo observado no estado. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do IBGE, os afroempreendedores representam atualmente 78,3% dos donos de negócios da Bahia. Embora tenha ocorrido uma leve redução de 3,1% no número de empreendedores negros nos últimos cinco anos, eles continuam sendo a principal força do empreendedorismo baiano.
Para o analista do Sebrae Bahia, Anderson Teixeira, esse tipo de negócio demonstra como identidade cultural e geração de renda podem caminhar juntas. “A Bahia possui uma cultura afro-brasileira muito forte e isso cria oportunidades únicas para negócios baseados em identidade cultural. O afroempreendedorismo não representa apenas uma alternativa econômica, mas também uma forma de valorização de saberes, histórias e tradições que fazem parte da formação do estado”, afirma.

Processo criativo
O processo criativo começa muito antes da cozinha. Antes de produzir, Rick conversa com o cliente para compreender a relação daquela pessoa com seu orixá. Depois, transforma essas informações em desenhos, esboços e projetos que servirão de base para a construção do bolo. “Eu tento entender como aquele orixá se manifesta na vida daquela pessoa. O bolo precisa conversar com a história dela”, explica.
Dependendo da complexidade, a produção pode começar até um mês antes da entrega. Flores de açúcar, esculturas, adereços e elementos tridimensionais são confeccionados separadamente e armazenados para compor a obra final.
Entre os trabalhos mais desafiadores da carreira estão um abalô de quase um metro de altura, um pilão esculpido em bolo com cerca de 1,20 metro e uma coroa de Xangô produzida para a posse de Mãe Neuza, liderança da Casa Branca, considerado um dos terreiros mais tradicionais do Brasil.
Rick odeia repetir projetos. Mesmo quando clientes utilizam trabalhos anteriores como referência, ele procura criar novas soluções estéticas. “O maior desafio é ser original. Eu nunca gostei de repetir bolo. Sempre procuro mudar alguma coisa, criar algo novo. É isso que mantém o trabalho vivo.”
A inovação acabou transformando o confeiteiro em referência para outros profissionais. Hoje, ele observa o surgimento de novos empreendedores atuando no mesmo segmento e vê esse movimento como um sinal de amadurecimento do mercado. “Salvador tem mais de três milhões de habitantes e milhares de terreiros. É impossível uma única pessoa atender toda essa demanda.”
Mais do que confeitaria
Para Vilson Caetano, pós-doutor em Antropologia, professor associado da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e babalorixá da Casa do Rei e Senhor das Alturas, o diferencial do trabalho de Rick está justamente na capacidade de transformar símbolos da cultura afro-brasileira em narrativas visuais. “Os bolos acabam sendo uma espécie de texto. Antes de comer, as pessoas procuram ler para entender aquilo que está sendo traduzido ou demonstrado ali”, afirma.
Segundo o pesquisador, a presença de bolos em celebrações de candomblé não é novidade, mas a sofisticação estética e simbólica observada atualmente representa uma releitura contemporânea de tradições que já existiam nos terreiros. “Ele mostra que as visões de mundo africanas continuadas no Brasil servem de inspiração para a comida. E não qualquer comida, mas uma comida ligada à celebração da vida, à festa e ao encontro”, pontua.
A relação entre confeitaria e educação também se tornou cada vez mais presente na trajetória de Rick. Nas redes sociais, onde coleciona mais de 15 mil seguidores, cada bolo publicado é acompanhado por explicações sobre os orixás representados nas obras. “Quando faço um bolo de Exu, por exemplo, aproveito para explicar que Exu não é o diabo. Nunca foi. É uma forma de combater preconceitos”, explica.
Ainda há um fortalecimento na relação entre bolos e arte. Isso se fortaleceu após a realização de exposições artísticas com esculturas de açúcar inspiradas nos orixás. Em uma delas, em 2024, apresentou 20 obras entre bolos, quadros e esculturas produzidas integralmente com técnicas de confeitaria no Teatro da Gamboa. Foi nesse momento que passou a se enxergar não apenas como confeiteiro, mas também como artista.
“Eu não sou somente um confeiteiro. Hoje eu me entendo como artista”, define Rick Blanco.
Boleiro dos Orixás
A transformação acompanha um movimento maior da economia criativa, segmento que movimenta bilhões de reais na Bahia e inclui atividades ligadas à cultura, gastronomia, design e produção artística. Segundo estudo da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), a economia criativa chegou a movimentar cerca de R$ 7,9 bilhões no estado em um ano, demonstrando a relevância econômica de negócios baseados em criatividade e patrimônio cultural.
Na avaliação de Anderson Teixeira, esse é um dos segmentos mais promissores para os afroempreendedores baianos. “A economia criativa é estratégica para o afroempreendedorismo porque a Bahia possui uma forte herança cultural afro-brasileira, além de atividades ligadas ao afroturismo, à gastronomia e às manifestações culturais que movimentam importantes cadeias econômicas. Ela permite transformar cultura em renda, fortalecer marcas com identidade própria e ampliar mercados, tanto no ambiente digital quanto no autoral”, explica.

Ancestralidade que gera renda
A experiência de Rick dialoga com um movimento mais amplo do afroempreendedorismo baiano. Segundo levantamento do Sebrae, 69% dos afroempreendedores do estado iniciaram seus negócios em busca de autonomia e independência financeira, enquanto 38% apontam o empreendedorismo como alternativa de sobrevivência.
O mesmo estudo mostra que os principais desafios enfrentados por esses empreendedores continuam sendo tornar o negócio rentável (38%), conseguir acesso a recursos financeiros (37%) e encontrar investimentos (28%). Também aparecem entre os obstáculos o racismo estrutural, a dificuldade de acesso à inovação e a inserção em mercados mais lucrativos.
Para Vilson Caetano, iniciativas como a de Rick mostram como a ancestralidade pode se transformar em oportunidade econômica sem perder sua dimensão cultural. “Os símbolos dos orixás são, ao mesmo tempo, expressões culturais, econômicas, sociais, políticas e artísticas. Nesse sentido, a presença desses símbolos ligados aos orixás, em expressões artísticas e produtos da economia criativa como bolo decorado, ajuda a fortalecer cada vez mais as nossas identidades negras e africanas que nós temos aqui no Brasil”, pontua.
Durante anos, a confeitaria foi a principal fonte de renda de Rick. No início, o faturamento girava em torno de R$ 200 a R$ 300 por mês. Com a consolidação da marca, houve períodos em que a receita alcançou entre R$ 7 mil e R$ 8 mil mensais. “Eu comecei vendendo brownie na escola. Nunca imaginei que um dia conseguiria viver da confeitaria e muito menos que meu trabalho seria reconhecido como arte.”
A pandemia exigiu adaptação. Com a suspensão dos eventos, Rick diversificou a produção e passou a vender brownies, doces e outros produtos para manter o negócio funcionando. Em meio ao crescimento da marca, à graduação em História e às demandas do negócio, ele enfrentou um processo de esgotamento físico e emocional. A sobrecarga levou a uma pausa temporária nas encomendas no ano passado. “Eu precisava cuidar da minha cabeça para continuar fazendo o que amo.”
Hoje, Rick divide a rotina entre a Fundação Casa de Jorge Amado, onde atua na área de mediação cultural, a graduação universitária e as encomendas que voltou a aceitar de forma mais seletiva. Seus futuros planos incluem abrir uma confeitaria especializada em doces inspirados nos orixás, retomar as exposições artísticas e publicar um livro dedicado à culinária e à confeitaria afro-religiosa. “Todo cozinheiro sonha em escrever um livro. Eu sonho em registrar essa culinária, esses doces e essas histórias.”